A desordem como estratégia

Nada do que acontece na Venezuela é apenas sobre a Venezuela. O ataque norte-americano não se explica só por petróleo, nem se esgota na queda — ou não — de um ditador. Ele inaugura outra coisa: a institucionalização da desordem como instrumento geoeconómico.

Ao agir de forma abrupta e juridicamente frágil, os Estados Unidos não procuram estabilizar o continente, mas introduzir um fator de risco sistémico. O alvo não é apenas Nicolás Maduro nem o regime venezuelano. O alvo real é a previsibilidade da América Latina como espaço económico confiável. E, nesse jogo, o maior dano colateral chama-se Brasil.

O Brasil é hoje um competidor direto dos EUA em três frentes críticas: alimentos, minérios estratégicos e energia. É também um fornecedor central da China, num momento em que Pequim depende da segurança alimentar e de cadeias de abastecimento longas, mas estáveis.

Ao semear instabilidade regional — risco político, tensões militares, pressão migratória, volatilidade cambial — Washington não precisa tocar diretamente no Brasil para reduzir a sua competitividade. Basta tornar o ambiente latino-americano mais caro, mais incerto e menos segurável.

Quando a confusão vira instrumento, nenhum país da região fica realmente fora do tabuleiro.

Esse movimento tem um segundo efeito, ainda mais estratégico: dificulta a consolidação da União Europeia como terceiro polo comercial autónomo. Uma América Latina convulsionada é uma América Latina menos atraente para investimentos de longo prazo, acordos estruturais e parcerias industriais profundas.

O recado implícito é claro: qualquer tentativa europeia de se estabelecer como parceira preferencial da região passa a carregar um prémio de risco geopolítico. Não é coincidência que isso ocorra no momento em que Bruxelas volta a discutir seriamente o eixo UE–Mercosul.

O que se constrói, portanto, não é uma vitória rápida, mas um pântano calculado. A captura de um líder sem a queda do aparelho militar — “prender o presidente sem prender os generais” — não encerra regimes; prolonga conflitos. O precedente histórico é conhecido e raramente termina bem. O caos prolongado não é um erro de cálculo: é o próprio cálculo.

O paradoxo é que essa estratégia também cobra um preço aos EUA. Instabilidade regional encarece energia, desorganiza fluxos comerciais e acelera a busca de alternativas sistémicas. Quanto mais a desordem vira método, mais Brasil e Europa são empurrados — por necessidade, não por ideologia — a cooperar para reduzir dependências e criar ilhas de previsibilidade num mundo em convulsão.

O mais ruidoso não são explosões em Caracas — barulho necessário para fazer prosperar uma narrativa — o que realmente inquieta é a clareza do novo Trump Real Polítics. Esta não é uma operação pontual destinada a combater um narco estado é a transformação do caos internacional até em ferramenta de política doméstica.

Quando são mesmo as eleições nos Estados Unidos ?


Entender as sanções


Fontes 

  1. Reuters — Trump diz que Maduro foi capturado após ataque em larga escala dos EUA
  2. Associated Press — Ataque dos EUA à Venezuela eleva risco de instabilidade regional
  3. Comissão Europeia — Estado atual do Acordo União Europeia–Mercosul
  4. União Europeia — Global Gateway para a América Latina e o Caribe
  5. Observatory of Economic Complexity — Comércio bilateral Brasil–China
  6. OEC — Exportações brasileiras de soja e impacto na segurança alimentar global
  7. Reuters — China impõe restrições a importações estratégicas para proteger a indústria doméstica

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