Um ano de “Doutrina Trump”

Uma fotografia diz tudo antes que o texto comece: um mugshot convertido em adereço social. Uma foto policial deslocada do tribunal para o salão, da gravidade para a encenação. O que se vê não é só Donald Trump como o conhecemos — é a transformação da política em espetáculo contínuo, onde a infração deixa de exigir consequência e passa a render aplauso.

Um ano após o regresso de Trump à Casa Branca, o que se impôs não foi apenas uma agenda, mas um método. A impunidade deixou de ser uma anomalia jurídica para se tornar linguagem corrente do poder. Não se governa apesar das transgressões; governa-se por meio delas. Cada limite testado e não punido converte-se em precedente, cada exceção em norma informal. O Estado aprende a conviver com a sua própria suspensão.

Quando processos judiciais são narrados como episódios de série, a política passa a obedecer à lógica do entretenimento.

Há aqui uma pauta invisível que raramente ganha manchete: a democracia não colapsa num gesto dramático, mas numa sequência de pequenas concessões morais. Quando processos judiciais são narrados como episódios de série, quando decisões institucionais competem com cliques, a política passa a obedecer à lógica do entretenimento. A lei, nesse cenário, não desaparece — ela é encenada. Serve como cenário, não como estrutura.

O efeito mais corrosivo não é a violação em si, mas a habituação coletiva. O escândalo perde valor noticioso, a indignação vira ruído de fundo. A pergunta já não é “isso é aceitável?”, mas “isso funciona?”. É assim que a impunidade se profissionaliza e se distribui em cascata: do topo do Executivo às agências, dos discursos oficiais ao comportamento cotidiano dos atores políticos.

O que a notícia que o Le Monde  escolheu para ilustrar “um ano de Trump”  revela sobre o nosso tempo é inquietante: confundimos visibilidade com legitimidade e confundimos sucesso narrativo com razão de Estado. Quando o poder aprende que pode tudo desde que entretenha, a democracia deixa de ser um pacto de limites e passa a ser um palco.

E palcos, como se sabe, não punem protagonistas — apenas trocam de figurino.


LE MONDE. Un an après son retour, Trump a imposé la culture de l’impunité. Paris, 21 jan. 2026. Acesso em: jan. 2026.


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