Quando a política invade a autoridade monetária, o dinheiro aqamuda de natureza — e a infraestrutura passa a falar mais alto do que a moeda.
A sinalização de que Donald Trump pretende substituir Jerome Powell por Kevin Warsh expôs uma contradição estrutural: Warsh critica o quantitative easing* e defende redução agressiva do balanço, mas aceita juros baixos sob pressão política. Isso não é nuance de escola econômica. É a evidência de que a disputa já não é por coerência macroeconômica, mas por quem controla a narrativa do dinheiro.
O Pix, concebido e operado pelo Banco Central do Brasil, não é moeda nem promessa ideológica; é infraestrutura pública.
Quando o banco central mais poderoso do mundo deixa de arbitrar e passa a jogar, a moeda perde neutralidade antes de perder valor. O mercado reage no curto prazo — dólar oscila, commodities sentem —, mas o impacto decisivo é simbólico: confiança institucional não se recompõe com comunicados. Ela depende de previsibilidade. E previsibilidade não convive com a subordinação explícita da política monetária ao ciclo eleitoral.
É nesse vácuo que surge uma oportunidade rara para o Brasil. O Pix, concebido e operado pelo Banco Central do Brasil, não é moeda nem promessa ideológica; é infraestrutura pública. Enquanto Washington discute quem manda nos juros, o Brasil dispõe de um sistema de pagamentos instantâneos que funciona 24/7, é interoperável, escalável e — sobretudo — institucionalmente neutro. Num mundo em que a moeda se politiza, a infraestrutura confiável vira ativo geopolítico.
O Pix não precisa competir com o dólar como reserva de valor. Basta competir como linguagem de troca. Em corredores de comércio regional, pagamentos transfronteiriços de baixo e médio valor e cooperação Sul–Sul, sistemas como o Pix reduzem fricção, custo e dependência operacional. Não se trata de “desdolarizar” por ideologia, mas de desintermediar por eficiência. A diferença é crucial — e sustentável.
A politização crescente do Federal Reserve deixa de ser um debate técnico para se tornar um fato político.
Há também um ganho de soft power. Enquanto a politização do Fed fragiliza a ideia de neutralidade institucional no centro do sistema, o Brasil pode afirmar algo contraintuitivo no século XXI: que o Estado pode oferecer bens públicos digitais eficientes sem capturá-los politicamente. Isso reposiciona o país não como desafiante monetário, mas como provedor de confiança transacional — um papel muito mais duradouro.
A história ensina que moedas perdem valor quando perdem credibilidade. Infraestruturas, ao contrário, acumulam valor quando permanecem estáveis. Se o Fed se torna parte do jogo político, o mundo buscará árbitros alternativos — ainda que silenciosos. O Pix é um deles. Não pela ambição de substituir, mas pela capacidade de funcionar quando a política falha.

* Quantitative Easing (QE) — política monetária não convencional usada quando baixar a taxa básica já não funciona.
Em vez de mexer só nos juros, o banco central cria moeda e compra grandes volumes de títulos (principalmente dívida pública e, às vezes, ativos privados). Ao fazer isso, empurra os juros de longo prazo para baixo, injeta liquidez no sistema financeiro e estimula crédito, consumo e investimento. A ideia é evitar recessão profunda ou deflação.
O custo aparece depois: expande o balanço do banco central, pode inflar preços de ativos (ações, imóveis), aumentar desigualdade e criar dependência dos mercados em dinheiro barato. Quando o banco central tenta reverter (vender ativos ou deixar vencer), o ajuste costuma ser doloroso.

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