A pergunta inevitável nasce daqui: se a transição energética estivesse realmente em fase avançada, por que a estabilidade económica do mundo ainda depende de depósitos subterrâneos cheios de petróleo?
Sempre que a história acelera, o planeta recorre ao mesmo reflexo. Abrem-se reservas estratégicas, acalmam-se os mercados, tenta-se impedir que o preço da energia contagie a economia inteira. Este mecanismo, coordenado desde os anos 1970 pela Agência Internacional de Energia, funciona como uma espécie de sistema nervoso da ordem económica global. Quando o choque chega, os governos recorrem ao crude armazenado como quem procura um desfibrilhador para reanimar o mercado.
A repetição desse gesto revela uma verdade pouco confortável. Durante duas décadas, o mundo habituou-se a falar de transição energética como se fosse um processo já consumado. Painéis solares multiplicam-se, turbinas eólicas povoam paisagens e carros elétricos tornaram-se símbolos de modernidade. A narrativa é poderosa: estamos a sair da era do petróleo.
Mas a realidade continua a contar outra história. Segundo o mais recente World Energy Outlook, cerca de 80% da energia consumida no planeta ainda depende de combustíveis fósseis. As renováveis crescem com velocidade, mas não substituíram o sistema que sustenta a civilização industrial. O que existe hoje não é uma troca de energia — é uma sobreposição. Novas fontes entram no sistema enquanto as antigas continuam a suportar transporte marítimo, fertilizantes, aviação, indústria pesada e a vasta maquinaria logística que mantém o comércio mundial em movimento.
É nas crises que essa arquitetura invisível se revela. Quando as tensões geopolíticas ameaçam o fluxo de energia, a resposta não é recorrer ao sol ou ao vento. A resposta é garantir que o petróleo continue a circular.
Este detalhe ganha dimensão estratégica inesperada para o espaço lusófono. Num mundo onde a energia volta a ditar o ritmo da política internacional, países com reservas ou posição logística relevante recuperam centralidade. O Brasil, com o pré-sal entre as maiores descobertas energéticas deste século, torna-se novamente um ator de peso no tabuleiro global. Portugal, inserido nas rotas atlânticas e na arquitetura energética europeia, pode reforçar o seu papel como ponte logística e diplomática entre mercados.
Crises energéticas sempre redesenharam mapas de poder. A atual não foge à regra. Ela apenas lembra aquilo que o entusiasmo tecnológico tentou antecipar demasiado cedo: que o século XXI continua a mover-se com a mesma matéria-prima que organizou o século XX.
O petróleo não regressou ao centro da história. Ele nunca saiu de lá.

Tem opinião sobre isto?