Durante muito tempo acreditou-se que a ciência deveria justificar a sua existência com utilidade imediata. Hoje sabemos que essa exigência, além de ingênua, é intelectualmente perigosa.
O economista Tim Harford recorda que algumas das tecnologias mais decisivas da história nasceram de pesquisas que pareciam não servir para absolutamente nada. A teoria dos números fascinava matemáticos que procuravam apenas beleza abstrata. Décadas depois, tornou-se a base da criptografia que protege o comércio digital e as comunicações globais. O estudo aparentemente excêntrico do comportamento das abelhas ajudou a inspirar algoritmos que organizam o tráfego da internet. Bactérias encontradas em fontes termais acabaram por permitir a técnica de amplificação genética conhecida como PCR, essencial para testes médicos contemporâneos.
A história do conhecimento humano é, na verdade, uma história de curiosidade antes de utilidade. Os grandes avanços raramente começam com um plano de negócios. Começam com alguém que quer compreender algo simplesmente porque existe.
Esse princípio foi defendido em 1939 por Abraham Flexner no ensaio The Usefulness of Useless Knowledge. Flexner argumentava que as descobertas mais transformadoras da ciência nasciam de investigações que não procuravam resolver problemas práticos. A utilidade aparecia depois, muitas vezes décadas mais tarde.
Essa ideia é profundamente subversiva numa época obcecada por métricas de produtividade. Governos querem resultados mensuráveis. Empresas procuram aplicações imediatas. Políticos pedem justificações rápidas para cada investimento em investigação. Mas a ciência — tal como a arte — opera frequentemente num tempo mais longo, mais silencioso, quase invisível.
Curiosamente, é nesse território aparentemente improdutivo que o pensamento humano encontra a sua maior liberdade. Quando um investigador não precisa provar imediatamente para que serve o que faz, ele pode explorar caminhos inesperados. É dessa liberdade que nascem os verdadeiros saltos de conhecimento.
O mundo contemporâneo corre um risco curioso: ao exigir utilidade constante, pode acabar por sufocar precisamente as descobertas que transformarão o futuro. Sociedades que financiam apenas aquilo que já parece útil tendem a produzir melhorias incrementais. Sociedades que permitem o luxo da curiosidade produzem revoluções.
Talvez por isso o fisiologista e Nobel Archibald Hill tenha respondido uma vez, quando lhe perguntaram para que servia o seu trabalho científico: “Para dizer a verdade, não o fazemos porque é útil. Fazemo-lo porque é divertido.”
A frase parece leve, quase irónica. Mas contém uma intuição profunda: o impulso que move o conhecimento humano é o mesmo que move a poesia, a música ou a filosofia.
Chama-se curiosidade.
E foi ela, desde o início, que fez o mundo avançar.

Ler sobre
FLEXNER, Abraham. The Usefulness of Useless Knowledge. Princeton University Press, 1939.
HARFORD, Tim. “The Case for Useless Knowledge.” The Economist, 14 mar. 2026.
HILL, Archibald V. Scientific Research and Public Value. London: Royal Society Lectures.

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