Cruzei-me com a Clara Pinto Correia no lançamento do meu primeiro livro, em Lisboa, no dia 8 de junho de 2013. Venci a vergonha e agradeci-lhe o “Adeus princesa” — e tudo o que nele aprendi sobre a minha essência. Não tiramos uma foto. Convoquei esta nos meus desejos e partilho aqui o diálogo impossível que só hoje poderíamos ter.
A cozinha era um quadrado de luz fresca e rasa no estio de Lisboa. Panos de linho pendiam como bandeiras de rendas, e o cheiro do molho — um caldo espesso de tomate maduro, coentros e memória — abria caminho no corredor. Na ombreira, o eco de uma cena antiga: Sebastião, de cabeça baixa, pergunta a medo; Barbinha, com a colher de pau como um cetro doméstico, sentencia: “Olhe que a carne é fraca.” E a resposta, quase sorrindo para o destino: “Eu sei, Sebastião — mas o molho é muito bom.” O eco apagou-se como quem sabe o seu lugar. Ficou a panela a fervilhar, e o relógio de parede a medir a respiração do texto.
Sentei-me. Foi há muitos anos. Quatorze exatamente. A mesa tinha migalhas de livros e sal. A cadeira rangeu devagar, como se pedisse licença à dona da casa para participar na conversa. Clara encostou a colher ao rebordo da panela e virou-se — olhos de quem reconhece antes de ver, mãos de bióloga habituadas a decifrar o invisível.
— Zé Manuel, este molho — disse, batendo com a colher no ar — é o teu problema e a tua solução. Há quem viva a temer a carne, e há quem aprenda a temperá-la.
— E tu escolheste sempre o tempero, Clara. A ciência para medir o mundo, a literatura para lhe dar sabor.
— A ciência dá-nos as ossaturas, meu caro. A literatura, a pele que arrepia. O erro é querer ser só esqueleto ou só epiderme. O humano é mistura.
— E o risco?
— O risco é o que impede o caldo de insipidez. — Aproximou a panela, como se me oferecesse uma prova. — Em literatura, o risco é a versão mais alta da ética: não repetir o fácil, não vender o que a época já compra sem mastigar.
— Em Adeus, Princesa fizeste da província um laboratório moral. Nem santos nem monstros: gente. O rumor da base de Beja, o jornalismo de ocasião, as versões que se contradizem — e ninguém sai ileso.
— Porque ninguém é ileso, Zé. Nem a rapariga do liceu, nem o fotógrafo que quer salvar a própria consciência num enquadramento perfeito. — Passou o dorso da mão pela testa, como quem apaga um argumento gasto. — A literatura serve para isto: para nos obrigar a mastigar devagar. A ciência explica o que somos; os romances, por que doímos.
— E quando a vida fecha a página a meio?
— Faz-se o que sempre se fez: escreve-se por cima. — Pousou a panela no descanso de cortiça. — A ficção não é mentira; é a nossa melhor hipótese de reescrever o real sem o amputar. O tal “cristal” de que falas — seja lá o que tenha sido na tua biografia — só se aguenta porque a linguagem lhe dá aresta e transparência.
— Há quem te queira num rótulo: a bióloga que escreve, a romancista que explica, a divulgadora que traduz.
— E eu, teimosamente, preferi ser muitas. A vida não é um departamento. — Aproximou-se da janela. Do lado de fora, as pedras brancas de Estremoz devolviam uma lua quase inteira. — Queres uma regra? Toma duas: rigor e ternura. Não se escreve bem sem rigor; não se escreve para humanos sem ternura.
— Rigor e ternura, no mesmo prato?
— Como o ácido e o doce num bom tomate — disse, rindo de leve com os olhos. — Há quem só perceba a acidez dos meus livros. O problema não é o sabor — é o paladar de quem lê.
— E a língua portuguesa, Clara? Caberá o nosso futuro nesta cozinha?
— Cabe, se aceitarmos que a cozinha é rede, não altar. A língua é um organismo: cresce com o que trazemos do mercado do mundo. Não há “pureza” sem fome. Se te disserem que preservar é fechar, desconfia. Preservar é arejar.
— Então, como se evita que a língua vire museu?
— Com conversas como esta. Com livros que incomodam a digestão da pressa. Com poetas a ligarem um ao outro para lerem poemas ao telefone. Com gente a cozinhar juntos a mesma palavra com temperos diferentes. — Voltou ao lume e baixou o fogo. — E com memória, meu caro. A memória não é só recordar: é escolher o que continua.
— E tu, o que queres que continue?
— A coragem de misturar. A delicadeza feroz de olhar um ser vivo ao microscópio e, no minuto seguinte, admitir que há coisas que nenhuma lente apanha. O saber dizer “não sei” sem desistir de perguntar.
Ficámos um instante em silêncio. O relógio recuou um passo. Da rua veio um cão a passar, com as unhas a tamborilar nas pedras. A casa respirava.
— Clara, e se amanhã alguém entrar por esta porta à procura de ti?
— Vai encontrar trabalho por fazer. Deixa apontamentos, mas não mapas. — Levantou a tampa: o vapor subiu, perfumando os azulejos com uma infância de domingo. — A melhor herança é um caderno com espaço em branco. Mesmo que o caderno seja a cabeça de quem fica.
— Dizes isto e pareces que te despedes.
— Não me despacho — organizo-te. — Serviu duas conchas num prato fundo de barro. — Come. Precisamos de proteínas para continuar a conversa, e as palavras, quando muito belas, também gastam corpo.
— O molho é mesmo muito bom.
— Pois é. — Encostou a anca à bancada, braços cruzados, como quem entrega a sentença. — E lembra-te do Sebastião. O problema não é a fraqueza da carne; é a covardia do espírito. O molho é só a vida a pedir-nos que não a tornemos dietética.
— E tu?
— Eu? — Passou o dedo pelo rebordo do prato, provando a própria frase. — Eu fico onde me lerem sem pressa. A morte é pontual; a leitura, quando verdadeira, chega sempre mais cedo e sai sempre mais tarde.
Dois talheres bateram de leve na cerâmica — um brinde da mesa. A luz da cozinha recuou como cortina de palco; de fora, a lua testou a maçaneta e não entrou. Ao fundo, quase imperceptíveis, os passos de Sebastião e Barbinha desceram outra vez o corredor do tempo, sem medo nenhum: sabiam a senha da casa. E eu, com o gosto do molho e da frase a persistir no céu da boca, entendi que certas pessoas continuam justamente assim — como uma receita bem ensinada: passam, mas não acabam.
— Fica mais um pouco, Clara?
— Fico no que escreveres bem, Zé. — E, antes que eu piscasse, a cozinha ficou idêntica a si mesma: a panela no lume baixo, a cadeira a ranger, a janela aberta para a pedra branca. Tudo como dantes, menos a evidência de que agora eu sabia cozinhar outra coisa: silêncio com tempero.
Nota. Adeus princesa foi um dos livros que mais marcou a minha juventude, a minha ideia de futuro e o meu desejo de morar em Lisboa. Entre outras coisas que não digo.

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