Coincidências de Barbacena

Barbacena voltou esta semana para o centro da língua portuguesa por duas vias ao mesmo tempo: a da culpa e a da memória. Quando uma universidade pede desculpas e um romance devolve rosto aos que foram reduzidos a número, o passado deixa de ser apenas história. Volta a ser uma cobrança.

Na mesma semana em que a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pediu desculpas publicamente pelo uso, no século XX, de cadáveres de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em atividades de ensino, Portugal recebeu As Rosas de Barbacena, novo romance de Alberto S. Santos, publicado pela Porto Editora.

Borges dizia que ao destino agradam as simetrias. Talvez. Mas aqui o essencial não está na coincidência. Está na ferida que reaparece dos dois lados do Atlântico ao mesmo tempo. A pergunta certa é simples e brutal: quem devolve nome, corpo e dignidade àqueles que um sistema inteiro tratou como matéria sem vida moral?

Os fatos são duros demais para caberem apenas na categoria de “episódio histórico”. O Ministério Público Federal informou que a UFMG formalizou, em 9 de abril, um pedido de desculpas e reconheceu violações de direitos humanos. As investigações mostraram que muitos corpos de pessoas mortas no Hospital Colônia — muitas vezes enterradas como indigentes — foram vendidos para aulas de anatomia. A própria apuração aponta a Faculdade de Medicina da UFMG como uma das principais adquirentes, com centenas de corpos registados, sobretudo a partir dos anos 1960.

Isto muda tudo no modo como Barbacena deve ser lida. O horror deixa de ser apenas um escândalo do passado brasileiro e passa a ser responsabilidade reconhecida por uma instituição concreta, com nome, história e prestígio. E esse é o ponto mais duro de encarar: a barbárie não viveu apenas no manicómio. Viveu também nos corredores respeitáveis do saber, nos procedimentos normalizados, na linguagem técnica, na frieza administrativa, na paz de consciência de quem achou que aqueles mortos não pertenciam plenamente ao mundo dos vivos.

Portugal e Brasil encontram-se numa rara zona de densidade ética.

É aqui que a literatura entra e faz aquilo que os comunicados, os processos e os arquivos não conseguem fazer sozinhos. As Rosas de Barbacena não serve para ornamentar a tragédia. Serve para obrigar a imaginação moral a entrar onde durante demasiado tempo só entrou a burocracia. O direito reconhece. A universidade pede desculpas. A literatura restitui humanidade. E sem essa restituição o pedido de desculpas corre o risco de ser apenas uma forma educada de encerrar o assunto cedo demais.

Portugal e Brasil encontram-se aqui num ponto raro de gravidade ética. Num lado do Atlântico, uma instituição admite a sua parte num horror. No outro, um escritor decide que esse horror ainda exige linguagem, forma e memória. Nesses momentos, a língua portuguesa deixa de ser apenas herança cultural. Torna-se lugar de restituição. Há semanas que produzem notícia. E há semanas, como esta, que produzem vergonha, consciência e dever.


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