Do lado de cá do Atlântico, o acordo Mercosul–União Europeia ainda é tratado como promessa; do lado de lá, começa a ser lido como arquitetura de longo prazo.
A análise da XP lembra algo que Bruxelas já percebeu e Brasília ainda hesita em assumir: o maior ganho não está no embarque imediato de mais soja ou minério, mas na reorganização estrutural da economia brasileira ao longo do tempo.
Ao reduzir barreiras, harmonizar regras e impor padrões ambientais e produtivos mais exigentes, o acordo empurra o Brasil para uma integração mais sofisticada às cadeias globais de valor, exatamente onde sempre falhou por excesso de protecionismo e conforto interno.
Para a Europa, é geopolítica pura: diversificar fornecedores, reduzir dependência asiática e ancorar influência num Sul Global instável. Para o Brasil, é uma escolha civilizacional disfarçada de tratado comercial: ou usa o acordo como alavanca para produtividade, inovação e previsibilidade institucional, ou ficará apenas com o ônus da concorrência externa sem capturar os ganhos de eficiência prometido.
O risco está aí, silencioso. Quem vive entre São Paulo e Lisboa sabe: acordos não modernizam países sozinhos. Eles apenas expõem, sem piedade, quem está disposto a mudar e quem prefere culpar o espelho.
Ao enviar o acordo para a justiça europeia o Parlamento europeu oferece mais tempo para as necessárias transformações, mas apenas isso.

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