Na verdade talvez se possa deixar isso já meio pré combinado

O restaurante não tinha nome visível — e isso, no Rio, é quase sempre um bom presságio. As mesas eram tortas, como devem ser as coisas que resistem ao excesso de ordem; os garçons tinham o olhar de quem já viu demais para se impressionar; e a televisão estava desligada, gesto raro e civilizado nos lugares onde a conversa ainda manda mais do que as telas do celular.

Sentados lado a lado,  de frente para a rua, os dois amigos observavam incansável passarelle  da Vieira Souto  com o distanciamento respeitoso de quem sabe que os cariocas, sobretudo os  daquela praia, nunca se oferecem inteiros a ninguém.

Ele mexia no gelo do copo como quem revê decisões antigas. Ela, mais atenta ao entorno do que à bebida, parecia escutar o que a cidade dizia nas entrelinhas.

— No próximo ano… — começou ele, sem concluir.

Ela sorriu, daquele sorriso que já traz correção embutida. — No próximo ano, o quê?

— No próximo ano eu gostava de ficar mais tempo por aqui.

Ela inclinou levemente a cabeça, como se analisasse a frase num laboratório invisível. — Gostava?

— Gostava.

— Engraçado — disse ela. — Eu diria “gostaria”.

Ele riu, com certa condescendência lusitana. — Vocês no Brasil vivem sempre no condicional. Nunca chegam ao verbo principal.

— E vocês ficaram no passado imperfeito — respondeu — Como se o futuro fosse uma repetição bem-educada do que já aconteceu.

Ele ia retrucar, mas desistiu. Pediu outra caipirinha que o garçom trouxe sem perguntar, gesto de quem já entende a pretéritos e condicionais melhor do que qualquer gramático

— Repara — continuou ela —, quando dizes “gostava”, parece que já viveste aquilo. Como quem diz: foi bom,  mas já não volta!

— E quando tu dizes “gostaria”, parece que estás a pedir licença ao mundo inteiro.

— E estou. Porque aqui o mundo muda de humor sem te avisar.

Um carro passou com o som alto. Um casal discutia na calçada. Um vendedor de mate gritou qualquer coisa que soou como poesia concreta.

— Talvez seja isso — disse ele. — Em Portugal, nós falamos como quem escreve atas.

— E no Brasil — respondeu ela —, a gente fala como quem negoceia a sorte com o destino.

Fez-se um silêncio confortável. Aquele tipo de silêncio que só acontece quando ninguém precisa dizer mais nada.

— Então o próximo ano… — retomou ele.

— … deixa — interrompeu ela. — Se der certo, ficas mais tempo. Se não der, a gente diz que gostarias.

Ele ergueu o copo. —  À nossa amizade

— Isso mesmo — disse ela sorrindo, tocando no copo dele. — A única coisa incondicional.

Riram e beberam. E por um instante, até o tempo pareceu aceitar aquela indefinição elegante, suspensa entre o que foi, o que é e o que talvez venha a ser — como convém a qualquer bom verbo mal conjugado.

Rio de Janeiro | 30. Dez. 2025

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