O amor sempre foi risco, erro e exposição. O que muda agora não é o sentimento, mas a tentativa contemporânea de o corrigir antes mesmo que ele aconteça.
Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser apenas ferramenta e passou a ocupar o lugar de mediadora dos afetos. Aplicativos prometem compatibilidade mais precisa, menos desgaste emocional e escolhas mais “inteligentes”. À primeira vista, parece progresso. Mas por trás dessa promessa de eficiência há uma transformação mais profunda: a ideia de que errar no amor é um defeito do sistema — e não parte da experiência humana.
Grande parte do debate público sobre namoro digital concentra-se em estatísticas, comportamento de usuários e melhorias técnicas. Pesquisas do Pew Research Center mostram que encontros mediados por plataformas se tornaram norma, não exceção. O discurso dominante apresenta a tecnologia como aliada neutra, capaz de reduzir fricção e ampliar possibilidades. O problema não está nos dados, mas no salto simbólico que eles autorizam.
Quando algoritmos passam a orientar escolhas afetivas, algo essencial se desloca. A responsabilidade pelo encontro migra do sujeito para o sistema. Se der errado, não foi desencontro, nem acaso, nem vida — foi mau ajuste. A frustração deixa de ser experiência formativa e passa a ser falha técnica.
É preciso lembrar: o algoritmo não deseja. Ele correlaciona. Não sente ausência, apenas reconhece padrões. Ao assumir o papel de filtro principal do afeto, redefine silenciosamente o que consideramos uma boa decisão amorosa. Compatibilidade vira score. Encontro vira previsão. O inesperado passa a ser ruído.
A própria indústria reconhece isso em seus relatórios. Grupos como o Match Group defendem que o uso de inteligência artificial melhora a experiência do usuário e reduz a fadiga emocional. Do ponto de vista empresarial, o argumento é sólido. Do ponto de vista humano, ele levanta uma pergunta incômoda: o que se perde quando eficiência se torna o critério central do amor?
Não é a primeira vez que tentamos domesticar o afeto. Já o fizemos por meio da moral, da religião, da psicologia, da autoajuda. A diferença agora é o verniz de neutralidade técnica. O algoritmo não julga — apenas calcula. E justamente por isso convence. Ele promete proteção sem parecer controle.
O risco maior não é deixarmos de amar, mas aceitarmos amar apenas dentro do que é recomendável. Quando sistemas são treinados para evitar conflito, estranhamento e desvio, eles não nos protegem — empobrecem a experiência humana. Um mundo em que o amor precisa ser validado por modelos preditivos é um mundo que desaprendeu a lidar com o acaso.
Talvez, no fim, a pergunta mais honesta não seja se a inteligência artificial pode ajudar a encontrar amor, mas se estamos dispostos a aceitar um amor que só acontece quando faz sentido para a máquina. Porque quando o algoritmo começa a editar os afetos, o problema já não é tecnológico. É humano demais para caber em código.


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