Washington discute a construção de um arco triunfal. O debate verdadeiro mede outra coisa: até que ponto uma democracia segura de si aceita transformar a memória nacional em cenografia de poder, grandiosidade e culto político.
Washington discute um arco. O tema real é outro: o momento em que o poder deixa de pedir legitimidade à história e passa a exigir dela cenografia.
A administração Trump formalizou em Washington o projeto de um arco triunfal de 250 pés em Memorial Circle, como parte das celebrações dos 250 anos dos Estados Unidos. O desenho prevê uma figura dourada inspirada na Liberdade, águias, leões e inscrições como “One Nation Under God” e “Liberty and Justice for All”. A proposta será analisada pela Commission of Fine Arts, enquanto veteranos e preservacionistas tentam travá-la na Justiça por considerarem que a obra fere a integridade visual e simbólica da ligação entre o Lincoln Memorial e Arlington.
O problema, não é apenas estético.Quando um poder político escolhe a monumentalidade excessiva para falar de si, está a confessar que já não confia na sobriedade das instituições. O gigantismo passa a cumprir uma função compensatória: ocupar o vazio entre autoridade formal e consentimento profundo. A pedra torna-se marketing. O dourado substitui a grandeza moral. A escala tenta fabricar unanimidade onde ela já não existe.
Há ainda uma ironia histórica. Os Estados Unidos construíram boa parte do seu prestígio global a partir da ideia de que a força republicana residia menos na exibição do poder do que na solidez dos freios, dos ritos e das instituições. Um arco desta natureza, colocado entre a memória de Lincoln e o silêncio de Arlington, troca essa tradição por outra gramática: a da política como espetáculo permanente, a da nação como palco e a da história como adereço do presente.
É por isso que a controvérsia importa também fora dos Estados Unidos. Brasília conhece o impulso monumental. Lisboa conhece o peso da memória imperial. O Sul conhece bem o teatro dos líderes que constroem formas grandiosas para esconder fragilidades reais. Sempre que o poder ergue símbolos demasiado ruidosos, convém escutar o que ele já não consegue convencer por meios mais discretos. Um país seguro de si não precisa gritar em mármore. Precisa merecer o silêncio respeitoso dos seus próprios símbolos.

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