O Ártico não está a aquecer apenas no termómetro: está a ferver na geopolítica. A disputa em torno da Gronelândia não é excentricidade diplomática nem bravata eleitoral. É o sinal mais visível de que o mapa do poder global está a ser redesenhado onde antes só havia gelo, silêncio e cooperação científica. O que está em jogo não é uma ilha: é o controlo do futuro.
Durante décadas, o Ártico foi tratado como exceção civilizacional — zona de baixa tensão, regida por consensos técnicos e por uma ética de contenção estratégica. Esse pacto informal ruiu. A abertura de rotas marítimas, a corrida por minerais críticos e a militarização progressiva transformaram o Polo Norte num tabuleiro de xadrez. Quando os Estados Unidos falam em “segurança hemisférica”, estão a falar de projeção de poder. E quando projetam poder, forçam resposta.
A lógica é simples e perigosa. Ao reposicionar a Gronelândia como peça central da sua defesa, Washington empurra Moscovo e Pequim para o norte. A Rússia já trata o Ártico como extensão natural da sua profundidade estratégica; a China, embora sem litoral ártico, vê na região a rota mais curta entre a Ásia e a Europa e uma via para reduzir vulnerabilidades comerciais. O resultado é a importação de uma lógica de confronto clássico para um espaço que nunca foi pensado para isso.
Há quem defenda que esta competição é inevitável, quase um reflexo automático da história. É um argumento confortável — e preguiçoso. O Ártico não é o Báltico nem o Mar do Sul da China. É um ecossistema extremo, habitado por comunidades que não contam nas equações de poder, mas pagam o preço das decisões tomadas a milhares de quilómetros. Transformá-lo num “Grande Jogo” é repetir, em versão polar, os erros coloniais do século XIX.
O contraponto existe: cooperação, multilateralismo, reforço de instituições como o Conselho do Ártico. Mas esse caminho exige algo raro na política contemporânea — autocontenção estratégica. Exige aceitar que nem todo o espaço acessível deve ser dominado, que nem toda a vantagem potencial deve ser explorada. Num mundo multipolar, esta é uma ideia quase subversiva.
A verdade incômoda é esta: a disputa pela Gronelândia não aumenta a segurança global; aumenta o risco sistémico. Ao trocar a lógica do consenso pela da dissuasão, as potências estão a construir um novo foco de instabilidade estrutural. O gelo derrete. As rotas abrem. Mas o futuro não precisa, por isso, de congelar numa nova Guerra Fria. Ainda há tempo — pouco — para escolher outra geografia do poder.

Para saber mais
MILNE, Richard. Greenland tussle risks opening a perilous Arctic ‘Great Game’. Financial Times, Londres, 2026. Disponível em: https://www.ft.com.
COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Arctic geopolitics and great power competition. Nova Iorque, 2025. Disponível em: https://www.cfr.org.
THE ARCTIC INSTITUTE. Militarization and governance in the High North. Washington, 2025. Disponível em: https://www.thearcticinstitute.org.

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