O custo da ilusão

Toda a sociedade gosta de boas notícias. O problema começa quando passa a exigi-las mesmo quando os factos seguem noutra direção.

Há um traço infantil na política contemporânea que se tornou perigosamente adulto: a crença de que todo desconforto coletivo pode ser amortecido por decreto, subsídio, narrativa ou truque contabilístico.

Sempre que um choque chega — no preço da energia, dos alimentos, da habitação ou do crédito — a primeira reação do poder raramente é preparar a sociedade para compreender o que mudou. A tentação dominante é outra: adiar a leitura do problema, suavizar a dor visível e transferir para diante o custo invisível. Governa-se o sintoma, negligencia-se a causa, adormece-se o cidadão.

O que quase nunca se diz é simples e devastador. O que acontece a uma democracia quando ela perde a coragem de dizer a verdade sobre o preço das coisas?

Preço não é apenas número. Preço é linguagem. Ele informa escassez, revela dependências, denuncia desperdícios, expõe fragilidades de um país e obriga economias inteiras a rever hábitos, prioridades e vulnerabilidades. Quando o poder interfere nessa linguagem apenas para preservar popularidade, produz uma mentira socialmente agradável e estrategicamente ruinosa. A conta some do presente e reaparece no futuro com juros políticos, fiscais e morais.

O ponto central está menos na economia do que na pedagogia pública. Uma sociedade madura não é a que sofre mais; é a que entende melhor o sentido do sofrimento quando ele chega.

A imaturidade coletiva instala-se quando governos tratam cidadãos como crianças a quem se deve poupar qualquer contacto com a realidade. Nesse ambiente, a política deixa de formar adultos e passa a administrar carências emocionais. O eleitor é mantido em suspensão, como se a estabilidade pudesse nascer da recusa em nomear o risco.

Portugal conhece, pela escala e pela dependência, o valor estratégico da disciplina. O Brasil conhece, pela abundância e pelo improviso, a sedução de transformar urgências estruturais em expediente eleitoral.

Em ambos os lados do Atlântico, a questão é a mesma: queremos conforto imediato ou inteligência histórica? Países que escolhem apenas aliviar o presente costumam descobrir tarde demais que estavam a financiar a própria fragilidade. Nenhuma nação se fortalece escondendo os sinais do tempo. A solidez começa quando o poder abandona a fantasia de baratear a realidade e decide, enfim, governar adultos.

Financial Times | 6.abr.2026


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