Há povos que confiam à pedra o trabalho da eternidade. Outros entregam aos livros a função de conservar aquilo que o tempo ameaça apagar, mas os mapuche, mais prudentes ou mais sábios, confiaram à madeira uma tarefa mais delicada: não conservar os mortos, mas acompanhá-los. Por isso esculpiam o Chemamüll, essa figura vertical e imóvel que os estrangeiros, com a sua conhecida pressa de nomear mal as coisas, chamaram estátua.
Durante anos, um desses corpos de madeira permaneceu num museu do sul do Chile, ao lado de cerâmicas, tecidos, fotografias e etiquetas. Era uma peça admirada pelos turistas por sua austeridade. Os guias diziam que representava um morto. Os mais informados corrigiam: representava a passagem. Os administradores do museu diziam, com a tranquilidade administrativa dos que nada entendem do destino, que a peça estava “preservada”.
Filipe, na primeira vez que visitou o museu, deteve-se diante dela mais do que os outros visitantes. Não saberia dizer por quê. Talvez porque os olhos da figura — cavidades simples, abertas na madeira — lhe causavam a impressão pouco confortável de não estarem vazios, mas ocupados por uma espécie de paciência que ressoava antiga. Anotou no caderno algumas impressões académicas, mais banalidades que memória, sobre ritos funerários, cultos ancestrais e permanências simbólicas e depois fechou o caderno. Sentia que escrever sobre aquela figura equivalia a descrevê-la do lado de fora, quando tudo nela parecia acontecer do lado de dentro.
Voltou no dia seguinte. E no outro. Ao cabo da semana já não fingia ver a coleção inteira: ia apenas ver o Chemamüll. Uma tarde, notou que a madeira tinha uma fenda nova junto ao peito. Chamou a conservadora do museu, que sorriu com a superioridade sorridente dos que acreditam em inventários. Disse-lhe que a fenda sempre estivera ali, talvez apenas a luz a tornasse agora mais visível. Filipe aceitou a explicação, como se aceitam as explicações sensatas quando não se está preparado para a verdade.
Nessa mesma noite sonhou com a escultura. No sonho, não havia museu, nem vitrine, nem placa. Havia apenas uma planície escura e a figura de madeira, plantada no centro do campo como uma ideia fixa. Ao aproximar-se, percebeu que a madeira não imitava um homem: recordava-o. A distinção, no sonho, era de uma clareza absoluta. Imitar pertence à arte; recordar pertence ao mundo. A escultura não havia sido feita para parecer humana, mas para guardar a hipótese de um homem.
A partir desse sonho, começou a suspeitar de uma tese extravagante, embora elegantemente simples. Talvez os Chemamüll não fossem esculturas funerárias no sentido comum. Talvez fossem dispositivos de memória destinados a ensinar à matéria uma forma de fidelidade. Se assim fosse, a madeira, durante anos de chuva, vento e luto, aprenderia aquilo que os vivos esquecem com demasiada facilidade: a persistência.
Tentou desenvolver a ideia num ensaio. Escreveu: “Toda civilização escolhe o material com que deseja dialogar com o desaparecimento.” Achou a frase boa, o que foi motivo suficiente para desconfiar dela. Rasgou a folha. Noutra página escreveu: “Talvez a alma não precise de um corpo; talvez precise apenas de uma forma que a espere.” Esta, embora menos brilhante, pareceu-lhe mais próxima de alguma verdade.
Certa manhã, encontrou um velho mapuche sentado num banco do pátio do museu. O homem não parecia interessado em visitantes, catálogos ou arquitetura. Olhava as árvores com a atenção de quem lê. Filipe, vencendo o pudor europeu que tantas vezes empobrece as perguntas certas, sentou-se a seu lado e falou-lhe da escultura. O velho ouviu sem interromper. Quando o outro terminou, disse apenas:
— O erro de vocês é pensar que a madeira serve para parecer. A madeira serve para lembrar.
O professor ia pedir esclarecimentos, mas o velho acrescentou:
— E há madeiras que, de tanto lembrar, acabam por aprender.
A frase, dita num tom sem ênfase, perseguiu-o durante semanas. Aprender o quê? Aprender a quem? Não ousou regressar ao pátio para procurar o homem; temia que ele não estivesse lá e que a ausência cancelasse a autoridade da frase. Preferiu conservá-la como se conservam certos oráculos: na sua incompletude.
Desde então começou a observar a escultura como quem vigia um relógio à espera de perceber o seu mecanismo secreto. Não ocorreu nada de extraordinário, o que o perturbou ainda mais. Nada se moveu. Nada caiu. Não houve ruídos noturnos, nem milagres convenientes. Apenas, pouco a pouco, lhe nasceu uma certeza absurda: a peça estava menos imóvel do que todos os outros objetos do museu.
Essa certeza obrigou-o a uma hipótese ainda mais inadmissível. E se o Chemamüll não estivesse ali para recordar um morto específico? E se, ao contrário, a sua tarefa fosse recordar aos vivos a sua própria condição de figuras provisórias? A ideia não era religiosa; era pior. Era ontológica. O que chamamos vida talvez não passasse de uma lentíssima aprendizagem da forma. Um homem passa décadas tentando coincidir consigo mesmo; uma escultura de madeira, ao menos, começa logo pela postura.
Recordou então algo lido na juventude, talvez em Coimbra, talvez de num comentador árabe de Aristóteles, talvez inventado pela própria memória, que sempre cita mal. — “É uma possibilidade, que toda identidade seja um hábito da matéria” . Se isso fosse verdade, o homem não estaria mais vivo do que a madeira; estaria apenas mais distraído.
Na sua última semana no Chile, foi ao museu um dia pela manhã e encontrou a sala vazia. Aproximou-se do Chemamüll com a reverência embaraçada que se reserva aos mortos e aos reis depostos. Pousou a mão sobre a vitrine. A madeira, por trás do vidro, mostrava seus sulcos, a sua secura, a sua silenciosa insistência. Pensou então, com uma nitidez que o alarmou, que talvez todos os homens fossem Chemamüll imperfeitos: corpos erguidos pela memória, esperando encontrar o caminho para alguma parte.
Não contou a ninguém essa ideia, demasiado ridícula para a academia e demasiado séria para qualquer conversa; e voltou a casa. Deu aulas, e sobre o assunto escreveu artigos sólidos, prudentes, legíveis e completamente mortos, nada mais que isso. Às vezes, diante dos alunos, interrompia alguma explicação sobre ritos funerários e ficava em silêncio, como se estivesse tentando lembrar qualquer coisa essencial mas que lhe sempre lhe escapava por pudor.
Muitos anos depois, já velho, abriu um caderno antigo e encontrou as notas dessa viagem. Quase todas lhe pareceram inúteis, até que, no final do caderno leu uma frase que não se lembrava de ter escrito:
“Há objetos que imitam o homem. Há objetos que o aguardam.”
Leu-a devagar e ficou algum tempo em silêncio na sala da sua casa em Portugal. A escultura estava a milhares de quilómetros dali, no museu onde a tinha visto. Mas foi, naquele exato momento que finalmente percebeu. Não era a madeira que precisava aprender a ser humana. Eram os homens que passavam a vida inteira tentando aprender a permanecer. Talvez essa vida fosse exatamente o tempo necessário para aprender a permanecer de pé.

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