Quando morre Jürgen Habermas, não desaparece apenas um filósofo. Encerra-se um dos últimos grandes projetos intelectuais do século XX: a convicção de que a democracia poderia sobreviver sustentada pelo poder do argumento.
Habermas dedicou a vida a pensar uma pergunta central: como sociedades livres podem viver juntas depois das catástrofes da história europeia? A resposta que formulou, sobretudo em obras como Teoria do Agir Comunicativo e A Inclusão do Outro, foi tão exigente quanto elegante. A democracia não se baseia apenas em eleições ou instituições. Ela depende de algo mais frágil: uma esfera pública onde cidadãos discutem, argumentam e aceitam que o melhor argumento deve prevalecer.
Esse ideal marcou profundamente a Europa do pós-guerra. Depois do totalitarismo e da devastação moral do século XX, a democracia europeia reconstruiu-se sobre a ideia de que diferenças culturais poderiam coexistir dentro de um quadro comum de direitos e princípios políticos. A integração não exigia uniformidade cultural; exigia compromisso com regras democráticas partilhadas. Durante décadas, essa visão alimentou a construção da União Europeia e inspirou um modelo político baseado em direitos fundamentais, diálogo público e instituições deliberativas.
O mundo que acompanhou os últimos anos de Habermas tornou-se cada vez menos habermasiano.
A esfera pública transformou-se. Redes sociais substituíram o debate por algoritmos de conflito. A lógica da viralização premiou indignação em vez de argumentação. Em muitos países, o espaço público deixou de ser um lugar de persuasão racional para se tornar um campo de mobilização emocional e tribal. A política tornou-se mais performativa do que deliberativa.
Ao mesmo tempo, o cenário internacional deslocou-se. Democracias enfrentam crises de confiança interna enquanto regimes autoritários demonstram capacidade crescente de organização, tecnologia e influência global. A ideia de que a história caminharia gradualmente para formas mais sofisticadas de deliberação democrática parece hoje menos segura do que parecia quando Habermas escrevia nas décadas de 1970 ou 1980.
Por isso me surgiu a pergunta: o que morre com Habermas? E a resposta logo surgiu com inevitável clareza. Morre a última grande confiança filosófica europeia na racionalidade pública como fundamento da política.
Habermas acreditava que sociedades modernas poderiam transformar conflito em diálogo, diferença em negociação e poder em argumento. O seu pensamento foi um esforço monumental para provar que a democracia não era apenas um mecanismo institucional, mas uma prática cultural de escuta e argumentação.
Significará a sua morte o fim dessa possibilidade? será talvez o contrário. Em tempos de fragmentação política e desinformação digital, a obra de Habermas ganha uma nova função: tornar visível o que está em risco.
democracias não colapsam apenas por golpes ou crises económicas. Também enfraquecer lentamente quando a linguagem comum desaparece e os cidadãos deixam de acreditar que conversar ainda vale a pena.
Democracias não colapsam apenas por golpes ou crises económicas. Também enfraquecer lentamente quando a linguagem comum desaparece e os cidadãos deixam de acreditar que conversar ainda vale a pena.
Foto gerada com inteligência artificial com o modelo nano banana do Gemini
Prompt: Uma foto autêntica e afetuosa de dois homens amigos, tirada de cima. Eles estão abraçados, com os braços um em volta do outro, e olhando para a câmera com sorrisos radiantes e genuínos nos rostos. Seus olhos estão voltados para cima, diretamente para a lente, criando uma conexão pessoal. O fundo é levemente desfocado, dando destaque à expressão de alegria e cumplicidade dos dois. O estilo é preto e branco, estilo magnum, formato retrato 5×4

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