O silêncio de Bondi

A manobra é simples e devastadora: muda-se o ocupante do cargo, preserva-se a máquina e empurra-se a responsabilidade para um vazio formal. O caso Pam Bondi expõe menos um escândalo isolado do que uma técnica contemporânea de poder: abrir arquivos, fechar a prestação de contas.

Washington voltou a exibir um velho truque do poder moderno: a verdade avança até à porta da instituição e para exatamente no momento em que alguém tem de responder por ela. O caso Pam Bondi interessa menos pela personagem do que pela técnica.

Os factos são claros. O Departamento de Justiça informou ao Congresso que Pam Bondi não irá depor sobre a condução dos arquivos de Jeffrey Epstein porque a intimação dizia respeito ao cargo de procuradora-geral, posto que ela já não ocupa. Trump demitiu Bondi na semana passada e nomeou Todd Blanche para liderar interinamente o DOJ. Ao mesmo tempo, permanece a disputa sobre a forma como os arquivos foram libertados: milhões de páginas, sim, mas com críticas severas sobre redações, omissões e exposição indevida de nomes de vítimas. Parlamentares dos dois partidos mantêm a pressão e falam até em desacato, caso ela continue fora do alcance do depoimento.

A pergunta decisiva nasce daí: o que acontece a uma democracia quando a responsabilidade deixa de seguir os actos e passa a seguir apenas o crachá? A resposta é inquietante. O poder aprende a administrar a culpa como administra organogramas. Troca-se o titular, preserva-se a máquina, esvazia-se a obrigação moral. A exoneração deixa de ser uma sanção ou uma correção. Vira uma tecnologia de descompressão política.

É aqui que o caso sobe de temperatura. Blanche, o sucessor interino, já afirmou que o presidente tem o direito de influenciar investigações. Essa frase não é um detalhe retórico. É a moldura do momento. Quando o chefe do aparelho de justiça admite como normal que a vontade presidencial penetre no coração das apurações, a autonomia institucional deixa de ser um princípio e passa a ser uma peça decorativa da república.

O dano maior não está apenas no que ainda se esconde nos arquivos. Está no que o cidadão comum aprende com este espetáculo. Aprende que a transparência pode ser parcelada, que a prestação de contas pode expirar com a função e que a verdade pública pode ser reorganizada como se fosse um problema logístico. Uma democracia começa a perder densidade quando a forma jurídica já não serve para alcançar a responsabilidade, mas para adiar o seu encontro com ela.

No fim, ficam os papéis. Milhões deles. Abertos pela metade, como janelas de um edifício que quer parecer ventilado enquanto conserva os quartos decisivos fechados.


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