Com o voto de 6 senadores republicanos o Senado dos Estados Unidos decidiu limitar a autoridade de Donald Trump para iniciar uma ação militar na Venezuela. Mas será que isso conta?
O Senado dos Estados Unidos decidiu limitar a autoridade de Donald Trump. O fato, em si, poderia ser lido como sinal de vitalidade democrática. Um pequeno grupo de republicanos cruzou a linha partidária e apoiou os democratas para reafirmar que guerras não são prerrogativas solitárias do Executivo. Mas é justamente aí que começa o silêncio mais perturbador desta notícia: o freio não nasce da lucidez estratégica, mas do medo tardio do precedente
Não se discute o impacto regional, a desestabilização da América do Sul, os fluxos migratórios, a tensão sobre o Brasil, a Colômbia ou o Caribe. Tampouco se discute a legalidade internacional como princípio estruturante. Ela surge apenas como argumento tático, quando convém ao jogo doméstico. O Congresso reage não porque a guerra seja errada, mas porque uma guerra sem autorização explícita poderia escapar ao seu controle futuro.
Aqui o mais revelador é que ninguém parece escandalizado com a ideia de uma intervenção em si. O escândalo é o método. A votação avança porque Trump tornou explícito algo que vinha sendo normalizado há décadas: a elasticidade perigosa do poder de guerra presidencial, ampliado desde o 11 de Setembro sob a complacência bipartidária, como mostram análises recorrentes sobre a aplicação seletiva da War Powers Resolution. O Senado não está a inaugurar um limite — está a tentar resgatar um que deixou apodrecer.
Esta votação até parece querer por freio ao autoritarismo de Trump mas a Venezuela nunca apareceu como sujeito político, apenas como cenário funcional de uma disputa interna americana.
Há ainda outro silêncio incômodo: o uso da política externa como ferramenta de mobilização eleitoral. A Venezuela funciona como símbolo conveniente — um regime impopular, um discurso moral fácil, uma ameaça distante. O risco real não é apenas militar; é narrativo. Quando a guerra se torna argumento interno, a diplomacia vira fraqueza e a prudência passa a ser lida como hesitação. Nesse contexto, o Congresso não age como poder coigual, mas como último guardião de uma porta que já foi arrombada noutras ocasiões, do Iraque à Líbia, como reconhecem retrospectivamente análises críticas da própria imprensa americana.
Este episódio revela menos sobre Trump e mais sobre o sistema que o tornou possível. A exceção virou método. A contenção virou espetáculo episódico. E a Constituição passou a ser evocada não como fundamento, mas como recurso defensivo. Para países médios, como o Brasil, ignorar esse movimento é um erro estratégico: a instabilidade produzida por aventuras externas alheias não respeita fronteiras nem neutralidades elegantes.
O Senado tenta conter um homem. O que não disse é que falhou, durante anos, em conter a lógica que o sustenta.

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