Por principio, o simulacro.

Enquanto o Nobel da Paz é avançado como troféu moral, a Constituição dos Estados Unidos permanece recuada, coberta por cortinas. Nada é atacado. Tudo é deslocado.

O primeiro plano é ocupado por uma moldura avançada, grande demais, ostensiva demais, carregada como se tivesse peso histórico. O gesto é frontal, quase pedagógico: eis o que importa, eis o que deve ser visto, eis o valor que se oferece à câmera. Atrás, em posição recuada e protegida, a Constituição dos Estados Unidos permanece ameaçada por cortinas. Não ausente. Não violada. Quase oculta.

O instante persiste, tanto no objeto exibido (a desvirtualização do Nobel da paz que Corina Machado oferece a Trump), como no texto escondido. O poder contemporâneo aprendeu que destruir símbolos produz resistência; retirá-los do campo de visão produz normalidade. A Constituição não é negada — é musealizada. Transforma-se em relíquia respeitável, mas politicamente inofensiva. O que antes limitava o poder agora decora o poder.

A moldura avançada cumpre uma função precisa: substituir o princípio pelo simulacro. Não é necessário discutir a lei quando se oferece um objeto mais simples, mais fotogênico, mais manejável. A política deixa de ser um campo de tensão e passa a ser um arranjo visual. O gesto vale mais do que o pacto. A cena, mais do que a norma.

É aqui que o título de Juan José Millás no El País Semanal encontra o seu nervo exato: ninguém queima nada, mas tudo arde. O incêndio é administrativo, silencioso, protocolar. Arde o sentido da Constituição quando ela já não precisa ser lida. Arde a ideia de limite quando o poder se apresenta como certificado moral autossuficiente.

Nada nesta imagem é improvisado. As cortinas existem para proteger, dizem. Mas também existem para regular o acesso, para decidir quando — e se — o texto fundador pode ser visto. A Constituição passa a depender de autorização simbólica. Já não confronta; assiste.

O que esta imagem revela sobre o nosso tempo é brutal na sua elegância: a democracia não está a ser derrubada, está a ser reencenada. Mantêm-se os objetos, preservam-se os rituais, repete-se a iconografia — enquanto o centro de gravidade se desloca. O poder já não precisa confrontar a lei. Basta colocá-la atrás de cortinas e avançar outra coisa no seu lugar.

Tudo parece em ordem. E é exatamente por isso que arde.

El País Semanal| 8.fev.2026

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