Texto em linha reta

A inteligência artificial cai onde a linguagem deixa de obedecer: no poema, a regra perde força, o sentido escapa e a máquina descobre — tarde demais — que nunca aprendeu a ler o humano.

A descoberta de que versos podem desativar mecanismos de segurança da inteligência artificial não é um detalhe técnico: é um acontecimento civilizacional. Quando um poema confunde um sistema treinado para reconhecer padrões e perigos, não estamos perante um bug, mas diante de uma fratura entre duas formas de inteligência — uma estatística, outra simbólica. A IA protege-se por regras; a poesia vive de exceções.

O estudo do Icaro Lab, divulgado pela DW, mostra que prompts em forma de poemas conseguem contornar filtros concebidos para bloquear conteúdos nocivos. O dado inquieta porque revela algo que os engenheiros preferem não admitir: os sistemas foram treinados para a prosa funcional do mundo administrativo, não para a linguagem ambígua que funda a cultura. A poesia não pede autorização; desloca sentidos, embaralha hierarquias, cria zonas cinzentas. É precisamente aí que a máquina hesita.

A metáfora seduz, mas é insuficiente. O que está em jogo não é a astúcia do poeta, mas a pobreza do modelo.

O problema não é que a poesia seja “perigosa”. O problema é que a IA foi desenhada com uma visão estreita da linguagem, tratando-a como veículo de instruções claras. A tradição literária — de Camões a Clarice, de Pessoa a Drummond — ensina o contrário: a linguagem é campo de tensão, ironia, metáfora, silêncio.

Quando o verso entra, o modelo deixa de reconhecer o comando como comando. A segurança falha porque o mundo humano não cabe num manual de instruções.

Há quem veja nisso uma nova forma de hacking cultural: poetas como hackers do simbólico. A metáfora seduz, mas é insuficiente. O que está em jogo não é a astúcia do poeta, mas a pobreza do modelo. Se um poema desmonta a proteção, é porque a proteção ignora aquilo que a linguagem tem de mais humano: a capacidade de dizer uma coisa querendo dizer outra. A IA tropeça onde começa a literatura.

O contraponto é evidente: segurança exige rigidez; cultura exige ambiguidade. Não se pode pedir a um sistema que seja totalmente seguro e, ao mesmo tempo, plenamente sensível à complexidade da expressão humana. A tentação será endurecer ainda mais os filtros, reduzindo a linguagem a fórmulas cada vez mais previsíveis. O custo disso é alto: uma IA funcional, porém culturalmente analfabeta.

A lição final é clara. O mito de Ícaro, citado pelos próprios pesquisadores, não alerta contra o voo, mas contra a arrogância. A IA voou alto demais sem compreender a matéria de que são feitas as palavras.

A poesia não é uma falha de segurança; é um teste de humanidade. Se queremos máquinas que convivam conosco, terão de aprender que nem tudo o que importa pode ser dito em linha reta.


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