Quando os Estados Unidos começam a recuar do seu papel de garante absoluto da segurança europeia, a geografia política do mundo muda de nome. O que durante décadas foi pensado como Atlântico Norte passa a exigir uma leitura mais ampla: Atlântico, sem adjetivos, sem tutela automática. Nesse deslocamento, novas responsabilidades emergem para o Sul — não como periferia passiva, mas como espaço decisivo de estabilidade, circulação e poder. Portugal e Brasil deixam de ser coadjuvantes da ordem atlântica e passam a ser chamados a sustentá-la.
Durante décadas, Portugal viveu confortável numa geopolítica delegada. Pequeno demais para decidir, estratégico o suficiente para ser protegido. O Atlântico funcionava como garantia automática: os Estados Unidos estavam lá, a NATO também, e o mundo ocidental parecia uma arquitetura estável. Quando a NATO se permite imaginar um mundo sem Washington, o que está em jogo não é um exercício académico — é a reconfiguração do mapa mental da segurança global.
Este deslocamento atinge Portugal de forma direta. O país deixa de ser apenas um membro disciplinado da aliança e volta a ser o que sempre foi historicamente: uma plataforma atlântica, ponte entre Europa, África e América do Sul. A Base das Lajes, tantas vezes tratada como resíduo da Guerra Fria, reaparece como ativo estratégico num contexto em que os EUA já não são presença garantida. A questão deixa de ser “quanto Portugal depende da NATO” e passa a ser “quanto a Europa depende da posição portuguesa no Atlântico”. Não é um detalhe: é uma mudança de estatuto.
Do outro lado do oceano, o Brasil observa em silêncio — mas não está fora do jogo. Uma eventual retração americana na Europa empurra responsabilidades para aliados regionais e valoriza potências não alinhadas formalmente à NATO. O Brasil, com o maior litoral do Atlântico Sul, uma tradição diplomática de autonomia e capacidade crescente de projeção regional, torna-se um ator indireto da nova equação de segurança. Não como parceiro militar clássico, mas como garantidor político de estabilidade atlântica, num momento em que as rotas, os cabos, os fluxos energéticos e os dados passam a ser tão estratégicos quanto os tanques.
Há aqui uma oportunidade que pode ser desperdiçada. Portugal e Brasil partilham algo raro: confiança política mútua, língua comum e ausência de conflito estratégico. Num mundo em que alianças se fragilizam, essa combinação é ouro geopolítico. Se Lisboa continuar a pensar-se apenas como periferia europeia, perderá relevância. Se Brasília insistir em olhar o Atlântico apenas como cenário económico, desperdiçará poder. O que este recorte revela é simples e desconfortável: quando o centro hesita, as margens são chamadas a decidir se permanecem margens — ou se assumem protagonismo.
A NATO a pensar o impensável não é sinal de colapso imediato. É sinal de transição. E nas transições, quem entende cedo o novo tabuleiro ganha voz. Portugal e Brasil têm história suficiente para reconhecer esse momento. A pergunta é se terão ambição para agir à altura dele.


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