Quem fica com o pub quando ele deixa de ser de todos?

Os pubs ingleses ensinam uma lição que o Brasil já aprendeu: valores comunitários não se preservam com salvadores ocasionais, mas com leis de incentivo capazes de transformar dinheiro privado em interesse público.

Há uma leitura mais inteligente — e mais justa — para a crise dos pubs ingleses. Eles não precisam ser resgatados por milionários bem-intencionados. Precisam ser reconhecidos pelo Estado como aquilo que sempre foram: instituições comunitárias essenciais, merecedoras de proteção pública por meio de instrumentos modernos, como a renúncia fiscal orientada ao interesse coletivo.

O pub não nasceu como negócio puro. Desde a Idade Média, foi lugar de encontro, descanso, troca de informações, negociação informal, convivência. Era onde a vida comum se organizava fora das instituições formais. A sua força nunca esteve na margem de lucro, mas na continuidade social. Um pub sobrevivia porque era usado, frequentado, integrado à rotina — não porque maximizava resultados financeiros.

O problema surge quando esse tipo de instituição passa a ser tratado como um ativo comercial qualquer. Submetido à mesma carga fiscal, às mesmas exigências e à mesma lógica de eficiência que um empreendimento financeiro, o pub torna-se vulnerável. Não porque perdeu relevância cultural, mas porque passou a carregar um peso económico incompatível com a sua função social — algo amplamente documentado em estudos sobre o declínio dos pubs no Reino Unido.

Diante disso, surgem duas respostas igualmente insuficientes. A primeira é deixar fechar, naturalizando o desaparecimento de espaços de convivência como se fosse mera “evolução dos tempos”. A segunda é celebrar quando alguém muito rico decide comprar o pub para o manter aberto. Esta última parece positiva, mas esconde uma inversão perigosa: o que deveria ser garantido como política pública passa a depender da vontade individual, como já alertam análises sobre filantropia substituindo o Estado.

Existe um terceiro caminho, mais sólido e já testado noutros contextos: leis de renúncia fiscal cultural. Não se trata de caridade, nem de subsídio cego. Trata-se de reconhecer que certos espaços produzem valor social, simbólico e comunitário que não pode ser medido apenas em caixa. O Estado abdica de parte da arrecadação, mas mantém o espaço vivo, público na sua função e regulado por critérios claros.

Nesse modelo, o dinheiro privado não compra o símbolo — serve ao símbolo. O pub continua a operar, a gerar emprego, a pagar salários, a servir a comunidade. Em contrapartida, recebe benefícios fiscais condicionados à manutenção da sua função social: acesso amplo, preços razoáveis, vínculo local, preservação cultural. O privado participa, mas não captura. O público regula, mas não asfixia — lógica semelhante à defendida pela UNESCO sobre património cultural vivo.

O Brasil conhece bem esse instrumento. As leis de incentivo cultural, quando bem desenhadas e fiscalizadas, não privatizam a cultura. Elas publicizam o investimento privado. O recurso é privado, mas a decisão é pública; há critérios, conselhos, contrapartidas e transparência. O problema nunca foi o mecanismo — foi o seu enfraquecimento político ou o uso retórico para deslegitimá-lo.

Se os pubs ingleses fossem enquadrados como equipamentos culturais comunitários, poderiam ser protegidos de forma sistémica. Não dependeriam do humor de um proprietário distante nem da atratividade simbólica do gesto de “salvar”. Teriam previsibilidade, equidade territorial e soberania local. Um pub de vila invisível teria a mesma chance de sobreviver que um pub charmoso de bairro turístico.

Mais do que isso: a comunidade manteria o direito de reconhecer o pub como seu. Não como favor concedido, mas como património vivo. O Estado cumpriria o seu papel mais nobre: garantir que aquilo que estrutura a vida comum não seja entregue ao acaso do mercado nem à benevolência dos mais fortes.

A questão central, portanto, não é quem pode comprar um pub para mantê-lo aberto.
É por que o Estado ainda hesita em afirmar, de forma clara, que há lugares que não podem ser tratados apenas como negócios — porque são infraestrutura moral da sociedade.

Enquanto essa decisão não for tomada, os pubs podem até continuar abertos.
Mas estarão sempre à espera de permissão.
Nunca protegidos por direito.

Financial Times| 24 Jan 2026

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