Fábricas fecharam. Estradas foram bloqueadas. Multinacionais acionaram protocolos de emergência. O gatilho foi a morte de um líder do cartel Jalisco Nueva Generación, seguida de ataques coordenados em vários pontos do México.
A notícia vem no Financial Times. A Honda suspendeu operações em Guadalajara, empresas como Michelin e Volkswagen recomendaram trabalho remoto e estradas foram incendiadas após forças de segurança matarem Nemesio Oseguera, o “El Mencho”. O episódio ocorre em meio à pressão pública do presidente dos Estados Unidos para que o México reprima cartéis, enquanto o país se prepara para sediar jogos da próxima Copa do Mundo. Os fatos são claros e verificáveis, como descreve o próprio jornal britânico em sua cobertura internacional.
Perante essa visão dantesca sobra uma pergunta: como é que um grupo armado consegue paralisar cadeias globais de produção? Quem de fato governa aquele território?
Fosse apenas violência episódica — mas não é. Trata-se de soberania operacional. Se um cartel consegue bloquear 250 estradas e impor a suspensão de fábricas estratégicas, ele torna-se, ainda que por horas, um agente regulador economia. A logística industrial — base do capitalismo contemporâneo — depende de previsibilidade. Quando essa previsibilidade é rompida por forças paralelas, o risco deixa de ser abstrato e passa a ser custo real.
O México é peça-chave na integração produtiva da América do Norte desde o acordo comercial que substituiu o Nafta, o USMCA. As cadeias automotivas funcionam como engrenagens trinacionais. Quando uma unidade em Guadalajara para, a fricção não é local — ela reverbera. Investidores não precificam apenas impostos e tarifas. Eles precificam governabilidade.
A reação das empresas foi reveladora: cautela, trabalho remoto, monitoramento constante. A retórica política falou em normalidade. O mercado agiu como se houvesse exceção. Entre o discurso institucional e a prática corporativa há uma diferença que merece atenção.
Para o Brasil e para Portugal, a lição é estratégica. Num mundo que discute nearshoring e reconfiguração de cadeias produtivas, estabilidade jurídica não basta. Segurança territorial tornou-se variável competitiva. Países que oferecem previsibilidade atraem investimento; os que oferecem incerteza tornam-se risco calculado.
A pergunta que ninguém fez continua a ecoar: o que acontece quando o poder informal consegue suspender o poder formal por algumas horas? Talvez o dado mais importante não seja a morte do chefe do cartel, mas o fato de o mercado ter reagido antes de o próprio Estado reassumir o controle simbólico da narrativa.
Em uma economia globalizada, soberania não é apenas um conceito político. É um ativo.


Tem opinião sobre isto?