Tetris. Entre sirenes e cinzas, um jogo que  cura.

No Brasil, o trauma tem sirene. Vem com giroflex azul refletido na parede da sala, com o celular vibrando de madrugada, com a estatística de violência que ganha nome próprio. Em Portugal, o trauma tem cheiro de eucalipto queimado em verão que não acaba, tem a notícia de cheias que atravessa a aldeia mais rápido que o vento. Em ambos, o trauma aprende a morar na memória.

E se reorganizar blocos for também reorganizar memórias ? O Brasil é um país que acumula imagens. Violência urbana, hospitais lotados, tragédias ambientais, polarização permanente. Portugal carrega outras imagens: incêndios florestais que rasgam o interior, uma crise econômica que deixou marcas silenciosas, uma pandemia que isolou idosos em casas de pedra. São traumas distintos, mas ambos visuais, repetitivos, persistentes.

Um estudo publicado na The Lancet Psychiatry mostrou que uma intervenção baseada no jogo Tetris reduziu de forma significativa memórias intrusivas em pessoas com transtorno de estresse (stress) pós-traumático, incluindo profissionais de saúde que enfrentaram a pandemia.

A técnica utiliza a rotação mental de formas geométricas para competir com as imagens traumáticas, enfraquecendo os flashbacks. Em semanas, muitos participantes relataram diminuição drástica das lembranças invasivas.

O Tetris não apaga o passado mas disputa espaço com ele. Obriga o cérebro a girar, encaixar, prever e ao fazê-lo, ensina à memória que não é pedra; é arquitetura e que pode ser redesenhada.

Há aqui uma inversão cultural interessante. Durante anos, o universo digital foi acusado de fragmentar atenção e produzir ansiedade. Agora, a mesma lógica geométrica pode ajudar a reorganizar imagens que não nos deixam dormir. O jogo torna-se ferramenta cognitiva. A distração vira método.

Mas o que Brasil e Portugal farão com isso? Deixaremos essa descoberta confinada a revistas científicas ou vamos transformar a evidência em política pública acessível? Num país onde terapia ainda é privilégio de poucos e noutro onde o interior envelhece sem apoio psicológico estruturado, uma intervenção breve, barata e escalável não é curiosidade — é oportunidade estratégica.

Talvez o verdadeiro desafio não seja apenas curar, mas reconhecer que nossas sociedades também precisam disputar suas imagens recorrentes.

Se o cérebro pode aprender a girar formas para enfraquecer o trauma, talvez no Brasil e em Portugal possamos aprender a girar nossas narrativas para não ficarmos tão presos a elas.


Receber mais histórias de lá e de cá

insere o teu e-mail e carrega no botão “Subscrever”


Comentários

Tem opinião sobre isto?

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.