Depois de mais de 25 anos de negociações, impasses e reviravoltas foi preciso ver Trump fazer um take over hostil ao petróleo da Venezuela para a União Europeia e o Mercosul finalmente aprovarem um acordo histórico.
Começou ainda no século 20. Este tratado, que cria uma das maiores áreas de livre-comércio do mundo, representa um marco geopolítico monumental. A assinatura formal está marcada para 12 de janeiro de 2026, em Assunção, no Paraguai, – com a presença confirmada da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, selando um processo que definiu gerações de diplomatas em ambos os continentes.
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Uma luta de 25 anos
No entanto, por trás das manchetes sobre protestos de agricultores e acalorados debates políticos, a aprovação do acordo foi impulsionada por motivações surpreendentes e definida por um xadrez político de alta tensão nos corredores de Bruxelas. Longe de ser uma simples liberalização de mercados, a saga do tratado revela uma complexa teia de interesses geopolíticos, proteções setoriais inesperadas e uma batalha que está longe de terminar.
Aqui revela os cinco pontos mais impactantes e contraintuitivos que definiram esta longa jornada.
1. O grande impulso para a assinatura não foi apenas comércio, mas o avanço da China e o affair Venezuela
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Avanço ou remendo?
Enquanto o debate público se fixava em tarifas sobre carne bovina e carros, a verdadeira urgência geopolítica para a Europa residia em um tabuleiro muito maior: a necessidade de conter o avanço estratégico da China na América do Sul e a nova política norte americana para a região. O acordo é uma tentativa direta da UE de recuperar terreno em uma região onde sua relevância vinha diminuindo, fortalecendo laços com parceiros “afins” para construir cadeias de suprimentos mais resilientes.
Os dados do Parlamento Europeu são claros e sustentam essa visão. A UE perdeu sua posição como principal parceiro comercial do Mercosul para a China em 2017. Em 2023, a diferença era gritante: o comércio da China com o bloco sul-americano representou 26,7% do total, enquanto o da União Europeia ficou em apenas 16,9%. O acordo, portanto, é tanto uma manobra econômica quanto uma resposta estratégica ao avanço chinês.
2. Uma reviravolta política de última hora

A aprovação do acordo no Conselho da UE exigia uma “maioria qualificada”, ou seja, o apoio de pelo menos 15 dos 27 países-membros, representando 65% da população do bloco. Durante meses, a aprovação parecia improvável devido a uma forte oposição liderada pelo presidente francês Emmanuel Macron, que contava com o apoio de Irlanda, Hungria e Polônia, todos motivados pela proteção de seus vulneráveis setores agrícolas.
O impasse foi quebrado por uma manobra diplomática decisiva vinda de Roma. O governo italiano, que inicialmente se opunha ao acordo ao lado da França, mudou sua posição e passou a apoiar o tratado. Essa mudança, crucial para garantir a maioria necessária, ocorreu após Bruxelas sinalizar a possibilidade de adiantar o acesso a até 45 bilhões de euros de subsídios já previstos na Política Agrícola Comum (PAC). Essa negociação de bastidores, focada em interesses nacionais específicos, foi o que finalmente destravou um acordo paralisado por anos, evidenciando que a negociação foi tão política quanto econômica.
3. Proteções surpreendentes (até para carros)
Contrariando a narrativa simplista de que o acordo é um negócio “injusto” que expõe a indústria sul-americana a uma concorrência predatória, o texto final contém mecanismos de proteção robustos e prazos de liberalização extremamente longos para produtos sensíveis. O setor automotivo do Mercosul, em particular, recebeu salvaguardas notáveis.

Os prazos de desgravação tarifária demonstram essa abordagem cautelosa:
- Veículos com motor a combustão: liberalização total em 15 anos.
- Veículos eletrificados: prazo de 18 anos.
- Veículos a hidrogênio: prazo de 25 anos.
- Novas tecnologias (ainda não disponíveis): prazo de 30 anos.
Além disso, foi incluído um “inédito mecanismo de salvaguardas” para a indústria automotiva. Caso as importações de veículos europeus cresçam de forma acelerada e ameacem a indústria do Mercosul, o bloco poderá suspender o cronograma de redução de tarifas ou retornar à tarifa padrão de 35% por até cinco anos. Essas concessões e longos prazos de adaptação não foram meros detalhes técnicos; foram contrapartidas cruciais para neutralizar a oposição interna e viabilizar o apoio político necessário para a aprovação do acordo.
4. Não é só um acordo, é o nascimento uma aliança estratégica
A importância do acordo transcende a economia. Ele formaliza uma aliança estratégica entre a UE e o Mercosul, dois blocos que compartilham laços históricos e culturais profundos. Juntos, eles criam um mercado de mais de 700 milhões de consumidores (447,6 milhões na UE e 270,9 milhões no Mercosul) e enviam um forte sinal a favor do multilateralismo em um cenário global cada vez mais fragmentado.
Geopoliticamente, o pacto funciona como um contrapeso estratégico. Para a União Europeia, que observava sua influência econômica diminuir na América do Sul frente ao avanço da China, o acordo é uma ferramenta essencial para recuperar terreno e fortalecer laços com parceiros afins. Ao se aliar ao Mercosul, a UE não apenas mitiga os efeitos de desafios como as tarifas comerciais dos Estados Unidos, mas também constrói uma alternativa estratégica para garantir cadeias de suprimentos resilientes, em claro contraste com a política de poder que tem dominado o comércio global.
5. A assinatura não é o fim da batalha
A aprovação no Conselho da UE em 9 de janeiro e a assinatura formal agendada no Paraguai são passos gigantescos, mas não representam a etapa final. Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, e a oposição, liderada pela França, não desistiu. Derrotado no Conselho, o governo francês agora deve concentrar seus esforços para dificultar o avanço do tratado na arena parlamentar em Bruxelas.
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Agora ratificar
O caminho para a ratificação final ainda reserva obstáculos significativos. Um grupo de eurodeputados já articula o envio do acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia para análise de sua legalidade. Trata-se de uma iniciativa que, segundo analistas, tem o potencial de atrasar a implementação do acordo por vários anos, adicionando mais uma camada de incerteza a uma saga que já dura um quarto de século.
Uma nova era de oportunidades
O acordo UE-Mercosul é muito mais do que um pacto econômico; é um evento geopolítico monumental, forjado em um quarto de século de disputas, alianças estratégicas e concessões dolorosas. Ele representa uma aposta no multilateralismo e na cooperação estratégica em um mundo cada vez mais polarizado. Com o acordo agora enfrentando seu último obstáculo no Parlamento Europeu, a questão que permanece é: os objetivos estratégicos compartilhados serão suficientes para superar os interesses nacionais profundamente enraizados que quase o inviabilizaram por 25 anos?
IAs utilizadas
Chatgpt, Gemini, notebook LM

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