Um húngaro premiado com o Nobel, um livro comprado na Colômbia, lido por um português, no Brasil, em espanhol, sobre o Japão, no dia em que a Hungria vai a votos.
Comprei este livro na Colômbia, no dia em que soube que László Krasznahorkai tinha recebido o Nobel de Literatura de 2025.
Gostei de o ter comprado em espanhol, (sendo eu) um homem da língua portuguesa, trouxe comigo para casa (no Brasil) um autor húngaro que, neste livro, escreve sobre o Japão. Gostei de confusão boa. Há livros que já nascem viagem.
Hoje, dia das eleições na Hungria, apeteceu-me partilhar isso. Porque às vezes a melhor maneira de olhar para um país não é começar pela política, mas pela literatura. A urna mostra a disputa do poder. Um grande escritor mostra o que há de mais fundo: o ritmo, a angústia, a imaginação, a sombra.
Al Norte la montaña, al Sur el lago, al Oeste el camino, al Este el río é um livro de procura. Um homem chega a Kyoto à procura de um jardim quase impossível. A história parece simples, mas o que importa aqui é outra coisa: a atenção, o silêncio, a contemplação, a exigência de olhar devagar. Krasznahorkai escreve como quem obriga o leitor a abrandar para voltar a ver.
Talvez seja isso que mais me interessa hoje. Um húngaro premiado com o Nobel, um livro comprado na Colômbia, lido por um português, no Brasil, em espanhol, sobre o Japão, no dia em que a Hungria vai a votos. Tudo isto cabe na mesma página. E talvez essa seja uma das funções mais bonitas da literatura: juntar geografias que a política separa e dar intimidade ao que parecia distante.
Partilho esta imagem por isso. Porque há dias em que ler também é uma forma de estar no mundo. E porque, no meio do barulho eleitoral, um livro continua a oferecer uma coisa rara: profundidade.

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