Kronos é o tempo que passa. Kairos é o tempo certo para agir. Quando o primeiro domina o segundo, a economia atravessa oceanos.
É menos sobre turismo e mais sobre filosofia política aplicada. Em Portugal, processos de licenciamento arrastam-se por cinco ou seis anos. No Brasil, o mesmo grupo anuncia seis hotéis até 2028, com cronograma, investimento definido e inaugurações marcadas. Não é contradição: é a vitória de Kronos sobre Kairos num lado do Atlântico — e o seu exato inverso no outro.
Kronos governa quando o Estado mede o tempo em pareceres sucessivos, despachos acumulados e decisões adiadas em nome da “complexidade”. É o tempo que passa sem produzir acontecimento. Kairos, pelo contrário, é o instante reconhecido, a decisão tomada quando todas as condições estão maduras. Não é pressa; é precisão. O que o investimento procura hoje não é ausência de regras, mas a coincidência entre maturidade técnica e decisão administrativa.
Durante décadas, Portugal ensinou o Brasil. Exportou modelos, quadros, saber institucional. Hoje, assiste — quase sem o admitir — a uma inversão silenciosa: o Brasil ensina o valor da decisão no tempo certo. Estados e municípios disputam projetos, organizam balcões únicos, estabelecem prazos máximos, criam previsibilidade. Não eliminam o risco; redistribuem-no. O maior risco passa a ser não decidir.
Em Lisboa, a lentidão transformou-se numa política urbana implícita. Cada ano de atraso é um emprego que não nasce, uma reabilitação que não acontece, uma oferta que não entra no mercado. A escassez deixa de ser natural e torna-se administrativa. Os preços sobem, as oportunidades concentram-se, a cidade encarece — não por excesso de procura, mas por bloqueio de resposta.
Quando um operador internacional afirma que “na Câmara de Lisboa falamos facilmente de cinco ou seis anos” e, na página seguinte, apresenta um plano acelerado no Brasil, não está a criticar a cidade. Está a ler o tempo. O capital, como a água, procura o declive. Hoje, esse declive chama-se Kairos. E encontra-o mais facilmente no Sul do que no Norte.
O caso do grupo Vila Galé não é exceção; é sintoma. Os números de investimento, as datas anunciadas e a expansão atlântica confirmam uma tendência maior: quem decide no tempo certo ganha projetos; quem adia perde centralidade. O Atlântico deixou de ser fronteira económica. Tornou-se um espelho de eficiência institucional.
Portugal não está condenado à lentidão. Cidades igualmente complexas — de Paris a Londres — operam com prazos claros, métricas públicas e responsabilização administrativa. A diferença não é cultural; é política. Aqui, o erro é decidir cedo demais. Ali, o erro é decidir tarde demais. Essa escolha tem impacto macroeconómico, territorial e simbólico.
Se Portugal quer continuar a ser porta atlântica da Europa — e não apenas sala de espera — terá de reconciliar Kronos com Kairos. O tempo continuará a passar. A questão é se o país volta a reconhecer o instante certo para agir. Porque, no século XXI, soberania mede-se também em decisões tomadas a tempo.
O acordo entre a União Europeia e o Mercosul torna visível essa diferença de atitude perante o tempo. Enquanto o debate europeu se concentra, legitimamente, em salvaguardas jurídicas, ambientais e sociais, os países do Mercosul trabalham na operacionalização: ajustam cadeias produtivas, antecipam exigências e preparam setores para a transição. Não se trata de modelos opostos, mas de ritmos distintos. O Sul, habituado a ciclos de incerteza, desenvolveu uma cultura de prontidão que pode ser instrutiva para a Europa. Num mundo de competição acelerada, a capacidade de conjugar exigência regulatória com decisão tempestiva deixou de ser detalhe técnico — tornou-se um ativo estratégico.


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