Durante décadas, a cultura foi tratada como algo simpático. Identitária. Mas lateral à economia dura. O acordo entre União Europeia e Mercosul muda isso — e abre uma oportunidade histórica para que Brasília e Lisboa deixem de ser apenas capitais políticas e passem a ser capitais estratégicas da indústria cultural transatlântica.
O tratado não fala só de tarifas. Ele fala de circulação de bens simbólicos, serviços criativos e direitos autorais. Em linguagem simples: transforma cultura em infraestrutura econômica regulada. Quem entender isso agora, ocupa lugar. Quem não entender, vira fornecedor periférico de conteúdo para quem manda.
Lisboa tem posição singular: é capital europeia e ponto de ligação histórica com a América do Sul e África. Brasília, por sua vez, pode converter a crítica de “distância cultural” em vantagem — coordenando políticas públicas que façam da cultura um setor exportador estruturado, com ambição internacional.
A verdadeira revolução não está apenas na soma das capacidades. Está na coordenação.
Brasília e Lisboa podem funcionar como duas cabeças de um mesmo sistema: uma define políticas, regula fluxos e garante escala; a outra traduz, distribui e conecta. Juntas, lideram um ecossistema que vai da literatura ao audiovisual, do design à arquitetura, da curadoria cultural às indústrias digitais.
Há ainda um efeito político decisivo: ao integrar cultura e acordos comerciais, o tratado desloca o debate do campo da identidade abstrata para o da soberania simbólica concreta.
Quem controla fluxos culturais controla narrativas. E quem controla narrativas, desenha o futuro.
Lisboa e Brasília agora têm a chance de provar que cultura não é adereço da política externa.
É uma das suas ferramentas mais eficazes. A indústria cultural global está sendo redesenhada sob a pressão da inteligência artificial, das plataformas e da escala de distribuição.
Ou ocupamos rapidamente esse espaço institucional — ou seremos apenas o lugar de onde o talento sai.
Não precisamos inventar talento.
Precisamos criar regra, escala e coordenação. Se falharmos, outros centros decidirão por nós o valor, o preço e o sentido da cultura que produzimos.


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