A Europa construiu uma das mais sofisticadas arquiteturas políticas do mundo. O problema é que, em algum momento, passou a confundir sofisticação com paralisia.
A queda do comércio entre os próprios países da União Europeia, pela primeira vez em quase uma década, não é apenas um dado económico. É um sinal antigo, quase clássico, de projetos políticos que começam a perder fluidez antes de perder legitimidade. Ao longo da história, impérios, confederações e uniões raramente entram em crise por ataque externo direto; entram em declínio quando os seus próprios mecanismos internos deixam de circular com naturalidade. A notícia que chega de Bruxelas diz menos sobre comércio e mais sobre um desgaste estrutural do próprio projeto europeu.
Desde sempre, a Europa acreditou que a ordem é uma virtude em si. O Direito Romano, a administração imperial, o Estado moderno, a burocracia comunitária — todos partilham a ideia de que governar é regular. O problema começa quando regular passa a significar atrasar, encarecer e fragmentar. Hoje, para muitas empresas, operar dentro da União Europeia tornou-se mais complexo do que operar fora dela. Criar, vender, escalar ou circular produtos no espaço europeu exige enfrentar um mosaico de normas nacionais, prazos longos de aprovação e interpretações divergentes de regras que deveriam ser comuns, como reconhecem os próprios relatórios da Comissão Europeia analisados pelo Financial Times.
O discurso oficial prefere explicar a retração do comércio interno com fatores externos: a pandemia, a guerra na Ucrânia, as tarifas dos Estados Unidos, a concorrência chinesa. Tudo isso é real — mas insuficiente. O que a estatística revela, com mais franqueza do que os comunicados políticos, é uma forma de autossabotagem lenta. A União quer ser potência normativa global, mas hesita em assumir o risco político da simplificação. Quer liderar a transição digital e verde, mas transforma cada avanço num processo que leva anos, como mostra o próprio relatório anual do mercado único. Quer autonomia estratégica, mas aceita a queda do investimento estrangeiro direto e a erosão da sua base industrial.
Nada disso é exatamente novo. O que há de eterno nesta notícia é a dificuldade europeia em lidar com a própria complexidade quando ela deixa de ser virtude e passa a ser obstáculo. Christine Lagarde tem insistido que os riscos internos se tornaram tão relevantes quanto as ameaças externas — uma forma elegante de dizer que o modelo começa a consumir a sua própria energia. Ursula von der Leyen responde com roteiros, estratégias e promessas de integração futura, numa tradição profundamente europeia: prometer movimento amanhã quando o presente já está travado.
A Europa não está em colapso. Mas encontra-se num daqueles momentos históricos em que precisa decidir se quer continuar a ser um belo sistema de regras ou voltar a ser, efetivamente, um espaço de circulação — de bens, de ideias, de capital e de oportunidades. Quando o comércio interno cai, o que está em jogo não é apenas a economia. É a confiança no pacto que sustenta a própria União.
A história é clara e pouco indulgente: projetos políticos que não se reformam por dentro acabam sempre por explicar o seu fracasso com ameaças externas. A estatística desta semana não é um alarme técnico nem um detalhe conjuntural. É um espelho antigo, daqueles que a Europa conhece bem — e que, ainda assim, insiste em evitar olhar de frente.

Referências
COMISSÃO EUROPEIA. Single Market Annual Report. Bruxelas, 2024.
FINANCIAL TIMES. Trade between EU members falls for first time in almost a decade. Londres, 2025.
LAGARDE, Christine. Discursos sobre riscos internos e competitividade europeia. Banco Central Europeu.

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