Ilustração editorial de um jornal cujas colunas se abrem para deixar passar uma voz vermelha.

A mulher que mudou a pauta

Gloria Steinem obrigou o jornalismo a reconhecer que a vida privada das mulheres era matéria pública. O seu legado mede-se pelo que hoje voltou a estar em disputa.

Em 1969, Gloria Steinem entrou numa igreja de Greenwich Village para cobrir uma reunião sobre aborto. Sentou-se a ouvir mulheres relatarem clandestinidade, humilhação e medo. Aos 35 anos, guardava desde os 22 o segredo do aborto que fizera em Londres. Naquela noite, o que parecera uma culpa individual revelou-se uma experiência política partilhada.

É nesse instante, mais do que nos óculos de aviador ou nas fotografias de manifestações, que se encontra a chave da sua vida. Steinem não inventou o feminismo nem falou sozinha por todas as mulheres. Fez algo decisivo para o seu tempo: ajudou a transformar aquilo que era tratado como confidência, desvio ou assunto doméstico em notícia, argumento e programa político.

O jornalismo aceitava-a enquanto repórter capaz de entrar disfarçada num clube Playboy, mas os editores recusavam-lhe espaço para escrever sobre o movimento das mulheres. Ela respondeu criando o espaço que faltava. Cofundou a revista Ms. em 1972 e demonstrou que aborto, violência doméstica, desigualdade salarial, trabalho invisível e autonomia do corpo não pertenciam às margens sentimentais da imprensa. Eram assuntos de poder.

Mudar a pauta significa mudar a distribuição da realidade. Durante séculos, o que acontecia a metade da humanidade dentro de casa quase nunca adquiria dignidade pública. Ao levar essas experiências para o centro do debate, Steinem alterou não apenas as conclusões, mas as perguntas. Quem decide? Quem recebe? Quem cuida? Quem pode falar sem pedir licença?

Essa operação continua necessária. A fronteira entre o que a imprensa considera universal e aquilo que relega a um nicho ainda revela quem possui autoridade para definir o mundo. Toda pauta é também uma hierarquia.

O culto ao ícone, contudo, contém uma armadilha. Nenhuma transformação daquela escala cabe na biografia de uma mulher branca, célebre e bem relacionada. O feminismo norte-americano foi construído também por Shirley Chisholm, Fannie Lou Hamer, Bella Abzug e milhares de organizadoras que não ocuparam as capas. Reduzir o movimento a Steinem repetiria o erro que ela combateu: confundir visibilidade com autoria exclusiva.

A sua força estava justamente em compreender que liderança também é escuta. A experiência na Índia ensinou-lhe a desconfiar das hierarquias e a procurar decisões construídas em comunidade. Mais tarde, ajudou a fundar organizações políticas, centros de apoio e redes internacionais sem abandonar a ideia elementar de que uma pessoa se torna sujeito quando alguém reconhece a sua história.

Gloria Steinem morreu aos 92 anos num momento em que parte das conquistas que ajudou a tornar imagináveis voltou a ser contestada. O direito federal ao aborto foi derrubado nos Estados Unidos, a Emenda dos Direitos Iguais continua incompleta e a própria palavra “feminismo” regressou ao campo das guerras culturais. A sua morte não fecha uma época; expõe a reversibilidade dos direitos.

Há uma ironia perfeita neste obituário. Os jornais dedicam páginas inteiras à mulher que precisou criar uma revista porque os jornais não consideravam a vida das mulheres matéria suficientemente importante. A homenagem estará completa apenas quando nenhuma experiência humana precisar de uma imprensa alternativa para ser reconhecida como realidade.


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