Aproximação a uma Geografia

A Cultura Europeia tem o seu assento e base em dois poemas, da autoria de um cego, proveniente de um estranho povo; nesses dois poemas, homens atravessam o mar para vingar uma afronta familiar e um homem atravessa o mar, para regressar à sua família. 

Entre estes dois textos há deuses e pessoas, guerra, amor, adultério, honra, e um mundo ainda por descascar e abrir. Ao longo desses poemas há diálogos entre guerreiros e divindades olímpicas, conversas entre homens e mulheres, há certezas e dúvidas e há razão e poesia.

Esses dois poemas foram o início da explicação que os Europeus tentaram definir disto que nós vemos e aprendemos a designar por realidade. Ver é a mais difícil aprendizagem da vida e não deixa de ser curioso que tenha sido um cego a tentar ensinar-nos a ver o mundo, as pessoas e o mar.

E desses poemas nasceu a primeira língua franca do mundo, falada desde a obscura e fria Europa do Norte, até aos confins da China.

Séculos depois, um outro estranho povo lançou-se ao mar e um outro cego escreveu outro poema, onde homens e deuses atravessam o mar oceano, para chegar à Índia. Nesse poema, os homens terminam a sua viagem marítima numa Ilha dos Amores, onde contemplam a máquina do mundo, mas também vêem a corrupção, os desmandos do reino, as traições e intrigas e invejas.

O Português desse poema descobriu uma coisa espantosa: é a língua que melhor permite ver. O aprendizado do olhar através da língua é duríssimo, porque é uma iniciação. A dureza de perder ilusões pueris, falsas promessas, em encarar a solidão e a tempestade da vida tem a recompensa da luz clara e manifesta, com que vemos a grande beleza da vida, do outro e do mundo.

Desse poema se estabeleceu a língua que melhor permite ver o mundo, a língua em que vos escrevo e falo: a língua Portuguesa.

Ninguém sabe como era a voz, o sotaque, o ritmo, as expressões e a gíria usadas por Afonso Henriques, Vasco da Gama, Pêro Vaz de Caminha. Sabemos, isso sim, que o Português é a língua mais mercurial, mais propensa a misturar-se, uma língua que ama e fornica e dá à luz filhos de uma mesma e outra língua, de muitas e desvairadas gentes. 

É uma língua de batimento, papo, milonga, mukanda, uma língua feita para falar e ser falada, uma língua feita para ser a primeira a escalar o Evereste e a entrar em Tanegashima, uma língua de casa grande e sanzala, uma língua de palácio e cárcere, uma língua feita para ver o mundo, uma língua aprumada para transformar o mundo. 

Não é uma língua fechada numa academia germânica ou sujeita à contabilidade anglo-saxónica: de todas as línguas do mundo, é aquela que está mais próxima para descrever sonhos e pesadelos, assim como é aquela que permite ao seu falante precisar o imprecisável, como escangalhado, zumbido ou alvorada. 

É uma língua que se espalha pelo mundo, que entra nas portas e lugares, uma língua do verme que primeiro rói as frias carnes de um cadáver, uma língua que sobe ao assento etéreo, uma língua dele jogo e brincadeira. Uma língua de diálogo.

“Uma geografia poética” é um diálogo em Português entre mitos, pessoas. Será não só uma explicação, mas uma mistura de explicações, temas literários, palavras. Tudo se mistura e baralha e volta a jogar. É uma máquina de emaranhar poetas.

Não deixa de ser encantador notar o paradoxo deste livro: sendo a geografia uma ciência que define com precisão um lugar, sendo os diálogos criados por José-Manuel Diogo uma utopia, e sendo a utopia um “lugar algum”, que geografia poética nasce destes diálogos?

Dialogar é compreender o outro, é ver e admirar-se com o outro. Onde há diálogo, nasce a cooperação. Onde se senta e se fala, acontece a ideia. Onde há ideia nascida do diálogo, surge a possibilidade. 

Não admira, pois, que dos grandes poemas onde começamos a ver o mundo, haja diálogo poético.

José-Manuel Diogo tem andado quase há vinte anos a dialogar, brincar, criar, misturar, conceber festivais, seminários de literatura entre Portugal e o Brasil. Na sua feliz expressão, é “o homem de cá e de lá”. Personagem romântica e quixotesca, investe contra os moinhos de vento da estupidez indígena, neste momento histórico dominada por broncos e tarados, que falam e escrevem muito mal a língua portuguesa. 

A pátria taradice, um fenómeno odioso, iniciado com a Inquisição, desenvolvido com os moscas de Pina Manique e com os caceteiros Miguelistas, teve o seu auge nas mãos de um antigo seminarista de Santa Comba Dão, com os resultados que a história identificou e, hoje, tenta reforçar-se com os uivos e mentiras de um antigo seminarista de Algueirão – Mem Martins. A pátria taradice odeia, persegue e castiga aqueles que tentam dialogar.

Os tarados de Portugal olham com desconfiança os cavaleiros da língua, que investem contra a mesquinhez da pátria, porque são eles os primeiros a permitir a dúvida. A dúvida é uma das ferramentas da razão, que moldam a possibilidade.

E os tarados nacionais detestam o diálogo, a dúvida, e a possibilidade.

No entanto, a recompensa desses cavaleiros da língua é superior a qualquer bafo de tarado ou tarado e meio, e José-Manuel Diogo tem e terá a recompensa dos grandes sonhadores da língua portuguesa.

“Uma geografia poética” é um livro atravessado por dúvidas e castigos, de pena e suplício. Por exemplo, Gregório de Matos e Bocage são proscritos, marginais que desmascaram a hipocrisia do mundo. São homens com dúvidas e medos.

Tomada esta premissa, olhemos este mundo, esta Europa de novo atravessada por tempos e homens sombrios. Agora, como no fim do século XIX, uma certa Europa diz crise e decadência, para justificar o massacre e o lucro. 

A Europa, que se presumia a Rainha do mundo, deixou de saber falar, deixou de dialogar e cerra portas e lugares. A Europa amedrontada, que disse “fim do mundo” e “fim da história” e “fim do muro”, desentendeu que não existe fim algum.

E tudo recomeça falando, tudo renasce e se renova dialogando.

Para falar, para dialogar, há que sair do calabouço europeu e reencontrar o mar, reencontrar a possibilidade aparentemente perdida.

O infinito pessoal de “Uma geografia poética” é um outro passo dado por José-Manuel Diogo, para aproximar essa possibilidade aparentemente perdida. Para tal, usou o diálogo entre mitos e pessoas de todos os lados de todos os mares do mundo onde se fala português. 

Os impérios deste mundo terão exércitos e moedas e tecnologia, mas não têm o mar. O mar é português, como magicamente abriu essa infinita macumba chamada “Mensagem”: possessio maris. 

O mágico domínio do mar permitiu a invocação de mitos e pessoas, alguns maiores, outros menores, mas todas e todos falantes de Português. Como os impérios deste mundo têm exércitos e moedas e tecnologia, mas não têm o mar, em breve cairão. 

Ninguém neste mundo fala russo. Ninguém neste mundo fala chinês. Por ora, a língua franca dos contabilistas e merceeiros anglo-saxões espalhou-se pelo mundo, mas nela estão contidos os vermes da sua queda e transformação, por não ter mar. O futuro mundo que aí virá necessitará de sonho, de ginga, necessitará de mar, necessitará de saudade. 

Quem mais sonha uma coisa que talvez nunca tenha existido e a projeta para o futuro? A língua Portuguesa.

Livro de sonhos e de esperança, mas também um livro de futuro, “Uma geografia poética” nos fala também da opinião que José-Manuel Diogo tem do futuro da língua e da poesia, e usou uma bela palavra: aproximação. Aproximação de passado, presente e futuro.

Para que tal aconteça, passado, presente e futuro se sentarão à mesa, dialogando, bebendo, amando, criando um novo mundo, impossível de definir, mas possível de sonhar, porque nós, neste momento, vemos bruma e nevoeiro, mas sentimos a distante madeira vermelha ardente no vento do mar.

E dizemos:

O futuro do mundo será falado na língua Portuguesa.

– Está ali! Está ali bem pertinho!

O lugar onde se encontra essa distante madeira vermelha ardente no vento do mar, será o futuro império do mundo e falará esta língua com que vos escrevo e falo.


Pedro Baptista-Bastos

Lisboa 17.12.2025


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