A disputa presidencial na Colômbia torna a segurança pública o centro da política regional. Para o Brasil, o aviso é direto: ou o país constrói uma narrativa própria contra o crime organizado, ou verá sua agenda ser definida por modelos estrangeiros, pressões externas e slogans eleitorais.
O primeiro turno da eleição colombiana acende um alerta que interessa diretamente ao Brasil. O advogado Abelardo de la Espriella, candidato de direita e sem experiência em cargo público eletivo, saiu à frente no primeiro turno da eleição presidencial da Colômbia, com cerca de 43,7% dos votos, segundo a apuração preliminar. O senador de esquerda Iván Cepeda, do campo político do presidente Gustavo Petro, ficou próximo, com cerca de 41%. Os dois disputarão a segunda volta em 21 de junho.
O resultado ainda depende da certificação oficial, mas o sinal político está aí. A Colômbia entrou na fase decisiva da eleição discutindo segurança, narcotráfico, grupos armados e o futuro da política de “paz total” de Petro. De la Espriella promete endurecer o combate ao crime, construir megaprisões e romper com a lógica de negociação com grupos ilegais. Cepeda defende a continuidade das negociações de paz e uma agenda social mais ampla.
A segurança pública voltou a ser o idioma central da política latino-americana. Quando o cidadão sente que perdeu o controle sobre a rua, o bairro, a noite, a escola dos filhos ou o direito de circular sem medo, a promessa de ordem ganha uma força eleitoral que programas sociais, estatísticas econômicas e discursos institucionais muitas vezes não conseguem conter.
É nesse ponto que o Brasil precisa construir a sua própria narrativa. O país não pode importar, sem filtro, o modelo Bukele, a retórica de guerra da direita regional ou a classificação norte-americana dos seus problemas internos. Também não pode tratar o crime organizado como tema lateral, entregue apenas aos governos estaduais, às operações policiais de impacto imediato ou a explicações sociológicas que, embora necessárias, não respondem sozinhas à urgência da população.
O desafio brasileiro é mais complexo. O PCC e o Comando Vermelho deixaram há muito tempo de ser apenas facções prisionais ou problemas localizados. Têm presença territorial, redes financeiras, conexões internacionais e influência sobre rotas de drogas, armas, portos, fronteiras e economias ilegais. Na Amazônia Legal, pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou 344 municípios com evidências de influência de facções criminosas em 2025. A região, que o mundo aprendeu a ver como fronteira ambiental, é também uma fronteira criminal.
A Colômbia torna essa discussão ainda mais urgente porque continua a ocupar papel central no mercado internacional da cocaína. A UNODC informou que a área cultivada com coca no país chegou a 253 mil hectares em 2023, com aumento de 10% em relação ao ano anterior. A produção potencial de cocaína subiu 53%.. Rotas, rios, fronteiras e facções conectam a crise colombiana ao território brasileiro.
Há ainda a dimensão da soberania. Os Estados Unidos anunciaram a intenção de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras e governo Lula reagiu dizendo que a medida interfere em assuntos internos do Brasil. A discussão é delicada: o crime organizado é uma ameaça real ao Estado brasileiro, mas a resposta não pode ser desenhada em Washington, nem capturada por interesses eleitorais internos.
O Brasil precisa dizer, com clareza, que segurança pública é uma política de Estado, não um slogan de campanha. Proteger a população exige inteligência financeira, controle de fronteiras, integração entre União e estados, tecnologia, reforma das polícias, combate à lavagem de dinheiro, presença permanente do Estado em territórios vulneráveis e cooperação internacional. Mas também exige limites legais. Força sem lei não restaura o Estado; apenas troca um poder paralelo por outro.
O primeiro turno colombiano mostra com mais clareza o risco de deixar a narrativa escapar. Se a democracia não oferece proteção concreta, imediatamente cresce a tentação de aceitar qualquer um que prometa proteger, mesmo contra a própria democracia.
O Brasil não precisa escolher entre ingenuidade e brutalidade. Precisa construir uma doutrina de segurança democrática: firme contra o crime, dura contra as facções, moderna na inteligência, nacional na soberania e constitucional nos métodos.

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