A morte de Jesse Jackson encerra uma biografia, mas não encerra a pergunta que ele deixou no ar: de que matéria moral é feita uma nação — e quem decide quem pertence a ela?
Jesse Jackson morreu aos 84 anos. Pastor batista, herdeiro político de Martin Luther King Jr., duas vezes candidato às primárias democratas, foi descrito como o homem que alertou para um “cabo de guerra pela alma da América”. A imagem que o acompanha é a de alguém que marchou entre ruas e palanques, entre a profecia e o sistema. A pergunta é simples e incômoda: essa disputa pela alma é apenas americana? Não. Ela é atlântica.
Mas o Atlântico que transportou escravizados também transportou a contradição. Portugal construiu império, o Brasil construiu uma nação independente mantendo a escravidão até 1888.
Quando Jackson falava em “alma”, não falava de abstração religiosa. Falava de desigualdade estrutural, de memória racial não resolvida, de promessas constitucionais nunca integralmente cumpridas. Essa tensão moldou os Estados Unidos desde a Guerra Civil até o movimento dos direitos civis, cujo marco jurídico maior foi o Civil Rights Act de 1964 .
Mas o Atlântico que transportou escravizados também transportou a contradição. Portugal construiu império, o Brasil construiu uma nação independente mantendo a escravidão até 1888. Nenhum dos dois resolveu plenamente a herança social desse passado.
O Brasil é a maior população negra fora da África. Ainda assim, os dados do IBGE mostram desigualdades persistentes de renda e acesso à educação. Portugal, por sua vez, vive hoje debates intensos sobre memória colonial, imigração e identidade nacional, refletidos inclusive nas discussões parlamentares sobre racismo estrutural. O que muda é o idioma político; o dilema permanece.
Jackson intuía que a democracia não se esgota em eleições. Ela exige uma narrativa moral partilhada. Quando essa narrativa se rompe, surgem populismos, radicalizações e ressentimentos. Nos EUA, isso se traduziu em polarização extrema. No Brasil, vimos o mesmo processo tensionar instituições. Em Portugal, a ascensão de forças políticas que exploram o medo cultural indica que o debate também atravessa o Tejo.
A “alma” é o pacto invisível que sustenta a convivência. Quando ele falha, a política vira guerra simbólica permanente. O obituário de Jackson pode parecer distante, mas ele ecoa no Atlântico: a disputa não é sobre esquerda ou direita, mas sobre quem pertence à comunidade nacional e sob quais condições.
Se a América luta por sua alma, o Brasil e Portugal lutam pelo sentido da sua história. E talvez a verdadeira questão seja esta: teremos coragem de enfrentar as nossas próprias heranças antes que outros transformem o passado em arma?


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