Estamos perante uma valorização da mulher ou de uma desvalorização da instituição? A pergunta é inevitável, mas a resposta não é simples.
Primeiro, enquadramento. O Conselho de Segurança nasceu para reduzir personalismos e conter impulsos nacionais através de regras e mediações, como estabelece a própria Carta das Nações Unidas. É uma instituição pensada para esfriar paixões e institucionalizar decisões.
A presidência do Conselho é rotativa entre os Estados, mas o assento sempre foi território de diplomatas, chanceleres, representantes formais do Estado. Ao colocar a primeira-dama naquele lugar, a administração de Donald Trump produz um movimento que é ao mesmo tempo simbólico e estratégico.
Agora a pergunta. Quando uma primeira-dama assume o comando da sessão, o gesto desloca o eixo do debate. Ele transforma um espaço de burocracia diplomática em palco de alta visibilidade. O que se valoriza ali? A figura feminina? O capital simbólico da família presidencial? Ou a própria ONU como cenário conveniente?
Há uma tentação fácil: dizer que se trata apenas de espetáculo. Não é tão simples. A presença de uma mulher num dos centros mais masculinizados do poder global carrega força histórica. Durante décadas, mulheres foram excluídas dos grandes fóruns de decisão. Ver uma mulher conduzir uma sessão do Conselho de Segurança não é trivial. É imagem potente, sobretudo às vésperas do mês dedicado às lutas femininas.
Mas há outra camada. Se a mulher entra no palco como extensão do poder familiar, o que se valoriza é menos a autonomia feminina e mais a centralização do poder. A linha é fina. Valorizar mulheres significa ampliar sua autoridade institucional própria, não apenas redistribuir simbolicamente o protagonismo dentro de um mesmo núcleo.
O detalhe está justamente aqui — e é sempre nos detalhes que o diabo se esconde. A ONU ganha mais atenção ou está é uma tentativa misógina de a tornar irrelevante?
O que está realmente em jogo é o preço do símbolo. Quando o gesto reforça a presença feminina como sujeito político, ele agrega valor civilizacional. Quando serve apenas como instrumento de narrativa doméstica, ele desloca o valor da instituição para a imagem.
A história recente mostra que as mulheres que transformaram instituições o fizeram por força própria, não por delegação graciosa. Se este movimento for porta de entrada para maior protagonismo feminino real na diplomacia, será avanço. Se for apenas fotografia estratégica, será marketing. Se for uma desvalorização do papel do Conselho de segurança da ONU, então é pura misoginia.
Entre valor e valorização, o que se decide não é apenas quem preside uma mesa. É qual modelo de poder queremos legitimar no século XXI.


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