O acordo UE–Mercosul não é um detalhe técnico de comércio exterior. É um gesto histórico com consequências políticas profundas, sobretudo para quem vive entre margens.
Quando a Comissão Europeia anuncia “avanços” para fechar o acordo com o Mercosul (12 de janeiro), ela fala em tarifas, prazos e volumes. Mas o que está em jogo é outra coisa: a redefinição silenciosa do lugar da Europa e da América do Sul na nova ordem global. E, nesse movimento, Brasil e Portugal ocupam posições muito menos confortáveis do que aparentam.
Para o Brasil, o acordo reforça um papel antigo com nova roupagem: o de potência agrícola chamada a garantir abastecimento global num mundo instável. A promessa de acesso ampliado ao mercado europeu seduz, mas carrega um risco estrutural: exportar cada vez mais commodities com baixo valor agregado enquanto importa bens industrializados, tecnologia e regras. O discurso da integração esconde a assimetria. O Brasil entra com território, água, solo e pressão ambiental; sai com volume, não com poder. A história latino-americana conhece bem esse roteiro.
Para Portugal, a questão é ainda mais delicada. País periférico dentro da União Europeia, Portugal tende a ser simultaneamente beneficiário retórico e amortecedor silencioso. Beneficia-se do discurso político da aproximação com o Brasil e com a América do Sul, tão útil à diplomacia cultural e económica; mas absorve, como outros países do sul europeu, os impactos indiretos de decisões tomadas no eixo Paris–Berlim–Bruxelas. O agricultor francês protesta; o português adapta-se em silêncio. Não é novo — é estrutural.
A imagem dos tratores em chamas na França não é um acidente. Ela revela o ponto exato onde o ideal europeu de livre-comércio colide com a realidade social. Quando Emmanuel Macron fala em “salvaguardas”, ele não está a discutir economia: está a tentar conter uma crise de legitimidade. O agricultor europeu percebe que o pacto global é celebrado em seu nome, mas raramente a seu favor.
O acordo UE–Mercosul também deve ser lido à luz da geopolítica. Num mundo em que a China se consolida como parceiro industrial e comprador estratégico de commodities, a Europa procura recuperar influência no Atlântico Sul. O tratado é menos sobre baixar tarifas e mais sobre marcar presença. Comércio, aqui, é instrumento de poder. E poder, como sempre, cobra um preço.
Brasil e Portugal partilham uma condição simbólica neste processo: ambos são apresentados como pontes — o Brasil entre mercados globais e recursos naturais; Portugal entre Europa e mundo lusófono. Pontes são úteis, mas raramente são destinos. Sustentam o trânsito dos outros.
O que este acordo revela, no fundo, é uma escolha civilizacional ainda mal assumida: num mundo fragmentado, quem aceita ser fornecedor e quem define as regras. O fogo nos campos franceses lembra que tratados não se assinam apenas em Bruxelas. Eles também são negociados, à força, nos territórios onde seus custos se tornam visíveis.
Se o acordo for fechado, não será apenas um triunfo diplomático. Será um teste político. Para a Europa, sobre a sua capacidade de integrar sem excluir. Para o Brasil, sobre a coragem de transformar acesso em desenvolvimento. Para Portugal, sobre o papel que deseja ocupar: voz ativa na definição do futuro atlântico — ou eco educado de decisões alheias.


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