O cobre não é verde

O futuro elétrico do mundo está a ser fundido em fornos antigos, e isso deveria preocupar mais gente.


Há um argumento elegante a sustentar a aproximação entre gigantes da mineração: escala. O cobre tornou-se o metal da transição energética, indispensável a redes elétricas, carros elétricos, data centers e à própria infraestrutura digital. Diante dessa corrida, fusões fazem “sentido económico”. O problema é que a equação apresentada é incompleta. Ela soma lucros privados globais e subtrai riscos públicos distribuídos, como se o balanço fechasse por gravidade.


A lógica é conhecida. Quando um recurso se torna estratégico, a concentração aparece como virtude: reduz custos, acelera investimentos, garante oferta. Mas essa mesma concentração desloca o risco para fora do radar dos acionistas. Risco ambiental, porque a pressão por volume encurta prazos de licenciamento e relativiza impactos locais. Risco regulatório, porque governos passam a competir por investimentos e flexibilizam regras. Risco político, porque comunidades afetadas descobrem tarde que não participaram da decisão que mudou o seu território.


A transição energética, neste enquadramento, funciona como narrativa legitimadora. Tudo passa a ser justificável em nome do “verde”, inclusive práticas que, noutras circunstâncias, seriam tratadas como regressivas. O discurso ESG aparece como selo moral, não como mecanismo de responsabilização. O capital captura a promessa do futuro; o Estado gere os conflitos do presente.


Há um dado estrutural que raramente entra no texto principal: o tempo. Investidores operam em ciclos curtos; territórios vivem consequências longas. Quando algo corre mal — um acidente, uma contaminação, um colapso social — o custo não aparece na linha de resultados da empresa que decidiu acelerar. Ele reaparece nos orçamentos públicos, na judicialização, na perda de confiança institucional. Lucros são privatizados; incertezas, socializadas.

Risco ambiental, porque a pressão por volume encurta prazos de licenciamento e relativiza impactos locais.

Risco regulatório, porque governos passam a competir por investimentos e flexibilizam regras


Não se trata de demonizar a mineração nem de negar a necessidade de cobre. Trata-se de recusar a fantasia de que concentração corporativa é neutra. Quanto maior o ator, maior a assimetria entre quem decide e quem suporta as consequências. A transição energética exige minerais, sim — mas exige, sobretudo, novas formas de governança. Sem isso, o mundo trocará o petróleo por outro metal mantendo intacta a mesma arquitetura de poder.


O cobre pode alimentar um futuro elétrico. O que não pode é servir de álibi para repetir um modelo que transfere risco para os mesmos de sempre, enquanto proclama virtude no topo da cadeia.

Observer | 10.ago.2026

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