Quando as crianças argentinas brincam com Lego, os estudantes têm McBooks e os desportistas garrafas Stanley. Quando comprar deixa de ser um ato de resistência e se transforma numa banalidade, isso é… revolucionário.
O entusiasmo argentino por Lego importado, computadores da Apple e garrafas Stanley não é um detalhe pitoresco de consumo: é um sinal avançado de uma mutação que atravessa o Atlântico Sul. Sob o governo de Javier Milei, a abertura comercial transformou o e-commerce internacional num atalho para a normalidade global. Comprar deixou de ser um ato de resistência para se tornar um gesto banal — e isso, na Argentina, é revolucionário.
As coisas mudam quando deslocamos o olhar para Brasil e Portugal. Em Lisboa, a economia aberta já convive há anos com a hegemonia de plataformas globais: acesso amplo, preços competitivos, mas cadeias produtivas comprimidas e dependência logística estrutural.
Em São Paulo, a discussão retorna com força à medida que o acordo Mercosul-União Europeia avança: abrir para ganhar escala e competitividade — ou proteger para preservar indústria e empregos? A Argentina, agora, antecipa a resposta: abre primeiro, mede depois.
O que está em jogo não é apenas a balança comercial; é a arquitetura do poder económico. Quando plataformas como a Amazon oferecem entrega facilitada e limites alfandegários mais altos, o Estado recua um passo e o mercado ocupa o espaço.
O consumidor sente alívio imediato; o produtor local, pressão contínua. No curto prazo, o fluxo resolve frustrações históricas. No médio, reorganiza dependências. No longo, redefine soberania.
Brasil e Portugal deveriam ler este recorte como ensaio geral. O consumo globalizado cria uma sensação de pertencimento ao mundo, mas desloca o centro de decisão para fora. Não se trata de nostalgia protecionista nem de euforia liberal. Trata-se de governança: quem define regras, prazos, custos e riscos quando o quotidiano passa a depender de cadeias que não controlamos?
A Argentina mostra que a abertura pode destravar o acesso e reduzir o atrito do dia a dia. Mostra também que, sem política industrial inteligente, o ganho vira conveniência sem estratégia.
Para o Brasil, a lição é clara: negociar abertura com contrapartidas produtivas e tecnológicas, usando escala para subir na cadeia de valor. Para Portugal, o alerta é outro: evitar que a integração total se converta em especialização frágil, dependente do humor das plataformas.
Lego, Mac e Stanley não contam uma história de consumo. Contam uma história de tempo histórico: a pressa de integrar-se ao mundo e o risco de fazê-lo sem mapa. O Atlântico Sul não precisa escolher entre abrir ou fechar. Precisa escolher como abre — e para quê.


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