Pensávamos estar a conversar com uma máquina. Na verdade, começámos a negociar com um mercado invisível.
Durante décadas, a publicidade viveu fora do pensamento. Esperava-nos na página seguinte, no intervalo, na lateral do ecrã. Agora, pela primeira vez, ela surge no interior da conversa, no exato momento em que a dúvida ainda não se transformou em decisão. É isso que muda quando o Google passa a inserir anúncios personalizados dentro da interação com a sua inteligência artificial.
A pergunta que ninguém fez — e talvez não quisesse fazer — é simples e perturbadora: o que acontece quando o mercado entra no raciocínio antes de ele terminar? Não quando decidimos comprar, mas quando ainda estamos a formular o pensamento. Quando testamos hipóteses, comparamos possibilidades, expomos fragilidades. A publicidade deixa de responder a uma escolha; passa a moldar o caminho até ela.
O ponto decisivo não está na sofisticação técnica, mas no deslocamento simbólico. Os anúncios já não são acionados por palavras-chave explícitas, mas pelo contexto semântico da conversa — isto é, pela forma como pensamos em voz alta diante de uma máquina que aprende a reconhecer intenção, hesitação e desejo. A IA deixa de ser intermediária neutra e passa a ser ambiente cognitivo. Um espaço onde informação e persuasão coexistem sem fronteira clara.
Talvez, no futuro, olhemos para este momento como instante em que deixámos de usar máquinas para pensar melhor — e passámos a pensar dentro de máquinas que sabem vender.
É aqui que a inovação se torna política. Porque, ao contrário da publicidade tradicional, esta não se apresenta como interrupção. Aparece como ajuda, sugestão, conveniência. E é precisamente aí que reside o seu poder. Quando não sabemos onde termina a assistência e começa a indução, a autonomia já foi parcialmente deslocada.
A naturalidade com que este movimento é apresentado diz tanto quanto a tecnologia em si. Em nome da eficiência, normaliza-se a ideia de que pensar é um ato economicamente explorável em tempo real. Que a conversa — último espaço de intimidade não mediada — se transforme num território comercial legítimo. O debate público ainda discute privacidade de dados, enquanto o jogo real já avançou para algo mais profundo: a atenção cognitiva como ativo estratégico.
Não se trata de demonizar a inovação, nem de nostalgia analógica. Trata-se de perceber que este passo redefine o contrato silencioso entre humanos e sistemas inteligentes. Quando a IA aprende a ouvir não apenas o que queremos, mas como pensamos, o risco não é o anúncio. É a erosão gradual da distância entre escolha e influência.
Talvez, no futuro, olhemos para este momento como o instante exato em que deixámos de usar máquinas para pensar melhor — e passámos a pensar dentro de máquinas que sabem vender.


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