Rio sem rumo

Com o governo vago, o Supremo dividido e o Judiciário acumulando funções executivas, a crise deixou de ser apenas sucessória. O que está em causa é mais fundo: a capacidade de distinguir regra de arranjos, autoridade de improviso, estabilidade institucional de simples sobrevivência administrativa em tempo de disputa.

Cláudio Castro renunciou ao governo do Rio em 23 de março para disputar o Senado. Dias depois, o TSE o tornou inelegível até 2030. Desde então, a sucessão virou batalha judicial e política: o STF passou a decidir se o mandato-tampão será preenchido por eleição indireta, a PGR defendeu voto direto, e o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, segue no comando interino do estado. Hoje, o Supremo já formou placar de 4 a 1 pelas eleições indiretas.

O ponto decisivo já não é o nome do próximo ocupante do Palácio Guanabara. A pergunta séria é outra: o que acontece a uma democracia quando ela começa a tratar a vacância do poder como um detalhe administrável? O Rio converteu uma urgência de legitimidade num exercício prolongado de adaptação institucional. E toda adaptação excessiva cobra um preço.

Palácio da Guanabara

O detalhe mais eloquente desta crise é cruelmente simples: um chefe do Judiciário administra o Executivo enquanto o sistema discute qual regra convém aplicar ao vazio. A cena parece técnica, mas carrega um significado político devastador. O Estado continua de pé, porém já não se apoia numa linha clara de autoridade. Apoia-se num arranjo. E arranjos prolongados ensinam mal a cidadania.

O brasileiro já foi treinado demasiadas vezes para aceitar o provisório como paisagem. Primeiro vem a exceção. Depois, a explicação jurídica. Em seguida, a acomodação política. No fim, o país aprende a conviver com a erosão sem lhe dar o nome correto. O problema do Rio não está apenas na disputa entre eleição direta ou indireta, embora ela seja central. Está no hábito nacional de empurrar o centro da decisão para uma zona cinzenta em que ninguém governa plenamente, mas muitos operam confortavelmente.

Crises assim produzem uma pedagogia perversa. O cidadão percebe que o poder pode ficar suspenso sem que o sistema entre em vergonha pública. Percebe que o comando pode ser substituído por procedimentos. Percebe que a legitimidade pode esperar. Só que uma democracia não enfraquece apenas quando viola as regras. Ela enfraquece quando acostuma a sociedade à ideia de que o centro pode faltar.

O Rio hoje é mais do que uma crise fluminense. É um ensaio brasileiro sobre o custo do improviso institucional. Países raramente desabam de uma vez. Eles aprendem, antes, a funcionar sem eixo.Prompt imagem


Prompt imagem de capa

Fotojornalismo contemporâneo, exterior urbano no centro do Rio de Janeiro em fim de tarde nublado, enquadramento amplo com o Tribunal de Justiça e prédios públicos ao fundo, trânsito pesado desfocado em movimento, pessoas comuns atravessando a rua com expressão cansada, e no plano intermédio um homem de terno sozinho parado na faixa de pedestres olhando para um edifício oficial, como se esperasse uma decisão que não chega. A fotografia deve sugerir um estado sem centro, autoridade em suspenso e fricção entre vida real e impasse institucional. Luz natural dramática, céu carregado, reflexos no asfalto, linguagem visual de fotojornalismo premiado, humanidade e poder no mesmo quadro, composição elegante, tensão silenciosa, realismo absoluto, sem texto, sem cartazes legíveis, sem artificialidade, lente 50mm, alta resolução, impacto emocional contido.

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