Qualquer empresário conhece o perigo da dependência de um único grande cliente. Enquanto as encomendas chegam, a concentração parece uma vantagem: menos custos comerciais, maior previsibilidade, uma relação consolidada. O problema aparece quando o comprador percebe que pode alterar as condições e que o fornecedor tem pouca margem para recusar.
Na semana passada, num jantar com intelectuais no bairro de Higienópolis, ouvi Guilherme Boulos falar da escolha de uma narrativa sobre soberania para ganhar as eleições brasileiras. A formulação tinha um objetivo eleitoral preciso. Ao colocar a autonomia do país no centro da disputa, procurava organizar a escolha dos eleitores em torno de um interesse capaz de atravessar divisões políticas.
Essa operação ganha força quando a pressão externa se torna visível. Donald Trump ameaçou impor tarifas elevadas e interromper parte do comércio com a Europa, caso considere hostil a aproximação entre europeus e canadenses. Dois parceiros procuram estreitar relações e um terceiro pretende influenciar essa decisão pelo custo que lhes pode impor. A soberania deixa de parecer uma palavra distante quando alguém apresenta a fatura pelo seu exercício.
A utilidade eleitoral dessa narrativa está na possibilidade de reunir pessoas que discordam sobre quase tudo o resto. Um industrial interessado em preservar mercados e um trabalhador preocupado com o emprego podem reconhecer o mesmo risco numa decisão estrangeira. Continuarão a divergir sobre impostos, salários e o papel do Estado. A pressão externa oferece-lhes, porém, um motivo concreto para uma aproximação política.
Foi essa possibilidade que me ficou da conversa em Higienópolis. Uma campanha centrada na soberania procura deslocar a fronteira entre os campos eleitorais: tornar relevante a distinção entre quem parece capaz de preservar a liberdade de decisão do país e quem passa a ser associado à sua limitação. Conseguir que o eleitor aceite esse enquadramento já constitui parte da disputa.
O Canadá permite observar a dimensão econômica do argumento. Mark Carney procura uma aliança com a Europa, distinguindo-a da adesão à União Europeia. A aproximação pode melhorar a sua posição perante Washington ao criar alternativas. Como numa empresa, encontrar um segundo comprador modifica a negociação com o primeiro, mesmo que este continue a ser o maior.
Para produzir resultados eleitorais no Brasil, a narrativa terá de ligar essa margem de escolha à vida de quem vota. Uma tarifa torna-se politicamente compreensível quando ameaça uma encomenda, uma fábrica ou a renda de uma família. É nessa passagem que a soberania pode sair do vocabulário diplomático e entrar no cálculo do eleitor.
A aposta que ouvi Boulos apresentar depende dessa tradução. Se a pressão externa for percebida como ameaça a interesses concretos, a defesa da soberania poderá alcançar eleitores para quem a identidade partidária, por si só, seria insuficiente. O empresário conhece o valor de ter alternativas; a campanha procura fazer o eleitor reconhecer o mesmo interesse no país.
Referências: SEISDEDOS, Iker. “Trump amenaza con ‘cortar el comercio’ si la UE se asocia con Canadá”. El País, 17 set. 2026. REUTERS. “Carney says Canada seeks ‘unique alliance’ but not membership with the European Union”. 13 set. 2026.

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