Tarifas como arma de guerra

O comércio internacional sempre foi apresentado como território da racionalidade: contratos, previsibilidade, regras. Um espaço onde a política negociava limites, mas não invadia o quotidiano das decisões empresariais. A ameaça anunciada por Donald Trump — impor uma tarifa de 25% a qualquer país que mantenha relações comerciais com o Irã — rompe esse pacto silencioso. O que se instala não é apenas uma nova sanção. É uma mudança de método.

Quando os Estados Unidos recorrem à tarifa como instrumento direto de coerção política, o comércio deixa de ser um espaço regulado por regras previsíveis e passa a funcionar como campo minado geopolítico. A decisão não se dirige apenas a Teerã. Ela interpela aliados, empresas multinacionais, cadeias produtivas e economias médias que dependem de múltiplos mercados para sobreviver. O recado é simples e brutal: negociar deixou de ser uma decisão económica; passou a ser uma escolha política com custo imediato.

O impacto mais profundo não recai sobre governos, mas sobre o setor privado. Ao impor sanções de alcance extraterritorial, Washington transfere o risco geopolítico para empresas que operam dentro da legalidade dos seus próprios países. Contratos tornam-se frágeis, investimentos de longo prazo perdem racionalidade e decisões empresariais passam a depender do humor político do momento. É um custo invisível no discurso oficial, mas devastador na prática.

Há um paradoxo difícil de ignorar. Em nome da defesa de interesses nacionais, cria-se um ambiente de incerteza que mina a própria atratividade do mercado americano. Países aliados, com relações comerciais legítimas e enquadradas por seus ordenamentos jurídicos, são empurrados para um dilema artificial: alinhar-se integralmente à política externa dos EUA ou aceitar prejuízos económicos relevantes. Não se trata de cooperação. Trata-se de subordinação apresentada como escolha.

Nesse processo, o multilateralismo vai sendo esvaziado sem alarde. A Organização Mundial do Comércio, já enfraquecida por bloqueios institucionais, torna-se espectadora de um jogo em que tarifas funcionam como sanções políticas sem mediação coletiva. A previsibilidade jurídica — fundamento do comércio global — cede lugar à lógica da força. Para países como o Brasil, isso significa operar num tabuleiro em que o risco regulatório deixou de ser exceção e passou a ser método.

No curto prazo, algumas indústrias podem até sentir proteção. No médio e longo prazos, o efeito tende a ser corrosivo. Cadeias globais procuram estabilidade; capitais fogem da arbitrariedade. Quando a política substitui o direito como principal regulador do comércio, o sistema inteiro perde eficiência, confiança e legitimidade.

Talvez o dado mais inquietante seja este: anúncios desse tipo já não causam escândalo. São absorvidos como parte do “novo normal”. E é precisamente aí que reside o perigo. Não na tarifa isolada, mas na sua banalização. Um mundo em que cada potência usa o comércio como arma permanente não é mais seguro. É apenas mais caro, mais instável — e muito menos governável.


Mais referências

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO. Understanding the WTO. Genebra: WTO, 2023.
BALDWIN, Richard. The Great Convergence: Information Technology and the New Globalization. Cambridge: Harvard University Press, 2016.
FARRELL, Henry; NEWMAN, Abraham. Weaponized Interdependence. International Security, v. 44, n. 1, 2019.


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