No acervo do MASP, duas meninas continuam de mãos dadas desde 1881. Renoir pintou Alice e Elisabeth Cahen d’Anvers com vestidos de festa; o tempo conservou o cetim, os laços e a infância. A vida de Elisabeth, porém, terminou sob a perseguição nazista. Segundo o registro do museu, ela morreu em 1944, durante a deportação para Auschwitz. Entre o retrato e esse destino cabe uma pergunta incômoda: quanto vale uma civilização que preserva tão bem a beleza e protege tão mal as pessoas?
O recorte publicado pelo Estadão em 30 de agosto trouxe essa distância de volta ao debate, a propósito de The Renoir Girls, de Catherine Ostler. A edição britânica saiu pela Simon & Schuster em abril. O livro investiga a família retratada e o mundo que a cercava. Sem o ter lido integralmente, interessa-me aqui a questão que a documentação do MASP e a apresentação editorial permitem colocar: o conhecimento da história muda aquilo que vemos.
Durante uma visita, podemos deter-nos na delicadeza dos vestidos e seguir para a tela seguinte. Depois de conhecer o destino de Elisabeth, o olhar demora-se de outra maneira. A criança ganha um futuro que a pintura não podia mostrar. O quadro permanece materialmente igual; nós perdemos a possibilidade de o considerar apenas uma imagem encantadora.
A cultura costuma beneficiar de uma confiança excessiva nas suas virtudes morais. Gostamos de imaginar que frequentar museus, ler romances e reconhecer um grande pintor nos torna, por acumulação, melhores cidadãos. Essa passagem precisa de trabalho. O refinamento do gosto pode conviver com a indiferença ao sofrimento alheio, e a familiaridade com a beleza pode servir de ornamento a convicções brutais.
Há uma responsabilidade particular em contar estas vidas. Quando uma vítima recupera o nome, a infância e os vínculos familiares, torna-se mais difícil acomodá-la numa estatística. A investigação histórica permite acompanhar uma existência antes de ela ser reduzida à condição de perseguida. E obriga o leitor a reconhecer a violência sofrida por alguém que tinha desejos e contradições próprios.
São Paulo tem uma oportunidade concreta diante desta obra. Um museu pode aproximar o retrato dos documentos, uma escola pode organizar a visita em torno das biografias, uma biblioteca pode fazer circular as leituras que prolongam a experiência. Cada instituição acrescenta uma camada de compreensão. Seria um desperdício deixar toda essa conversa encerrada na legenda de uma parede.
Também importa resistir à pressa de converter o passado numa acusação automática contra o presente. As diferenças históricas exigem rigor. Ainda assim, podemos aprender a reconhecer o momento em que a origem de alguém começa a valer mais do que os seus atos, ou em que a exclusão passa a ser tratada como conveniência. Esse aprendizado depende de atenção, de linguagem precisa e da disposição para contrariar o nosso próprio grupo.
Um livro sobre um quadro pode, assim, cumprir uma função pública muito concreta: devolver duração às pessoas que uma imagem fixou num instante. A conversa entre as artes ganha consequência quando atravessa a admiração e chega à responsabilidade. Guardamos os vestidos de Alice e Elisabeth com um cuidado extraordinário. Devemos às vidas que os vestiram uma atenção igualmente persistente.
Referências
MASP. Rosa e azul — As meninas Cahen d’Anvers. São Paulo: Museu de Arte de São Paulo, s.d. Consulta em 7 set. 2026.
OSTLER, Catherine. The Renoir Girls: A Hidden History of Art, War & Betrayal. Londres: Simon & Schuster UK, 2026. Dados consultados na apresentação editorial em 7 set. 2026.
THE ECONOMIST. A intolerância por trás de uma obra-prima. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 30 ago. 2026, Artes Visuais, p. C10. Recorte fornecido pelo autor.

Tem opinião sobre isto?