Ao remover entraves à fiscalização das fronteiras, Javier Milei aprende uma lição maior que a Argentina: liberdade comercial sem capacidade estatal premeia quem foge da lei.
Na Argentina, câmaras empresariais estimam que até 40% das cervejas e 30% dos pneus vendidos sejam contrabando. Quanto aos celulares, as importações ilegais terão passado de 7%, antes de Milei, para mais de um 30% na atualidade. Garrafas cruzam rios, cigarros chegam em camiões e falsificações desembarcam em contentores. A economia abriu-se; os fora da lei perceberam primeiro.
Milei herdou um país onde o câmbio paralelo e as barreiras aduaneiras tornavam muitos produtos legalmente inacessíveis. Unificar o peso e reduzir tarifas atacou uma distorção real. O governo elevou de mil para três mil dólares o limite das compras por courier e isentou de tarifas os primeiros 400 dólares para uso pessoal. Em 2025, as importações de bens de consumo cresceram 55% e as compras internacionais pela internet triplicaram.
O erro está na sequência. Alguns controles foram desmontados enquanto impostos e custos continuaram a pesar sobre a empresa formal. Um importador ouvido pelo Financial Times calcula pagar 90 dólares em tributos por cada 100 de mercadoria; com subfaturação, a conta cairia para 35. A competição passou a ter linhas de chegada diferentes.
A reforma puniu precisamente quem continuou a cumprir a lei.
O paradoxo liberal é incômodo: uma economia aberta precisa de um Estado mais inteligente na fronteira. Mercado exige rastreabilidade, inspeção por risco, dados partilhados e punição previsível. A consultora MAP estima que o contrabando de apenas sete categorias tenha retirado 2,3 mil milhões de dólares aos cofres públicos em 2025. A perda maior atravessa empresas, empregos, segurança dos produtos e financiamento do crime organizado.
O Brasil conhece a mesma sedução nas fronteiras e no comércio eletrónico. Portugal beneficia de um mercado europeu sem barreiras internas porque existe uma fronteira externa comum. Ambos lembram que simplificar procedimentos exige melhorar a fiscalização, não dispensá-la.
Milei disse ao Congresso que uma empresa incapaz de competir deve fechar. Nenhuma empresa compete de forma justa com a evasão. O Estado pode retirar os torniquetes do comércio e conservar a porta. Sem essa inteligência, a primeira atividade libertada pela abertura será o contrabando.

Referências
FINANCIAL TIMES. “Argentina battles flood of contraband goods as Milei opens economy”. Londres, 31 ago. 2026.
ARGENTINA. Ministério da Economia. “Se eleva a USD 3.000 el monto para importación de mercaderías a través de courier”. Buenos Aires, 2 dez. 2024.
ARGENTINA. Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro. “Bitácora institucional 2025”. Buenos Aires, 2025.

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