A extrema-direita de churrasco — ilustração editorial JMD®

A extrema-direita de churrasco

Na Alemanha Oriental, a AfD descobriu que a radicalização avança melhor quando parece uma festa de família. O perigo deixou de gritar e aprendeu a sorrir.

Às margens do Elba, em Magdeburgo, milhares de pessoas enfrentaram o vento para comer salsichas, beber cerveja e tirar fotografias com Ulrich Siegmund. O candidato da Alternativa para a Alemanha, de 35 anos, evitou um comício com aparência de combate. Montou uma festa de família e transformou a política mais radical do país numa tarde agradável de domingo.

A operação pode levar a AfD a um resultado sem precedentes nas eleições deste domingo, 6 de setembro. As sondagens colocam o partido acima de 40%, quinze a vinte pontos à frente da CDU, e a barreira de 5% pode converter menos de metade dos votos numa maioria absoluta de lugares. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, uma força de extrema-direita poderá governar sozinha um estado federado alemão.

A banalidade do cenário contém a inovação política. A AfD trocou parte da fúria dos palanques por festivais, motorizadas da antiga Alemanha Oriental, gelados, música e fotografias com “Ulli”. A mensagem chega embrulhada em nostalgia: já fomos uma comunidade, roubaram-nos o país e podemos recuperá-lo. O radicalismo aprendeu que a pertença convence melhor do que a ameaça.

O terreno foi preparado durante décadas. A Saxónia-Anhalt envelheceu, perdeu jovens e não recuperou do choque industrial da reunificação. Para muitos habitantes do Leste, a Alemanha unificada pareceu a absorção de uma sociedade pela outra. O centro político administrou essa ferida como estatística; a AfD devolveu-lhe memória, culpados e identidade.

Compreender o ressentimento não absolve quem o explora. A secção regional da AfD é classificada desde 2023 pelos serviços de proteção da Constituição como comprovadamente extremista, por atacar a dignidade humana e o princípio democrático. O programa inclui uma ofensiva de “deportação e remigração”, nacionalismo na educação e na cultura e reaproximação energética com a Rússia. Sob o cheiro do churrasco existe um projeto de Estado.

Uma vitória daria ao partido instrumentos mais eficazes do que qualquer discurso: polícia, escolas, financiamento cultural e influência no Bundesrat. O controlo do Ministério do Interior também o aproximaria de informações sensíveis num momento de guerra híbrida russa contra a Europa. A democracia alemã passaria a partilhar com o extremismo as chaves da administração.

A lição ultrapassa a Alemanha. As democracias liberais sabem identificar partidos extremistas, mas perderam capacidade para criar vínculos com cidadãos que se sentem descartados. O Estado produz relatórios; o populista oferece uma mesa, uma história e reconhecimento. Enquanto os democratas falam em cordões sanitários e combinações parlamentares, a extrema-direita organiza comunidade.

O cordão sanitário continua necessário, embora já não seja suficiente. A resposta exige serviços públicos visíveis, salários, futuro para os jovens e uma narrativa de dignidade que não entregue a pátria aos nacionalistas. Exige falar com os eleitores sem tratar o seu abandono como preconceito inevitável, mantendo uma fronteira firme contra a perseguição de minorias e a destruição institucional.

A AfD talvez vença e permaneça fora do governo; talvez alcance a maioria e atravesse a última barreira. Em qualquer cenário, Siegmund já demonstrou que a extrema-direita pode parecer acolhedora antes de se tornar autoritária. A democracia raramente perde a praça quando os monstros chegam aos gritos. Por vezes, recua enquanto famílias comem salsichas e agradecem a quem finalmente as fez sentir em casa.


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