A estabilidade como álibi — ilustração editorial JMD®

A estabilidade como álibi

Giorgia Meloni tornou a direita radical administrativamente normal. O preço da sua longevidade pode ser uma Itália estável demais para mudar.

Em Bari, diante dos militantes do Irmãos de Itália, Giorgia Meloni celebrou 1.413 dias consecutivos no poder. Num país que atravessou 68 governos em 80 anos de República, a marca supera o recorde de um único gabinete de Silvio Berlusconi e permite à primeira-ministra apresentar a duração como obra: “A estabilidade é a primeira grande reforma que entregámos à nação.” A frase converte o calendário em programa e a permanência em resultado.

A manchete que a coloca como a governante italiana mais duradoura desde Mussolini exige precisão. O gabinete Meloni é o mais longo e ininterrupto da Itália republicana; Berlusconi continua a ser o primeiro-ministro com mais tempo acumulado, somando quatro mandatos. A referência a Mussolini descreve a sombra histórica de uma dirigente formada na tradição pós-fascista. Meloni aprendeu a ocupar o centro democrático e a tornar quotidiana uma direita que a Europa tratava como exceção.

A sua resistência vem do pragmatismo. A candidata que prometia enfrentar os burocratas de Bruxelas preservou o apoio à Ucrânia, adotou disciplina orçamental e construiu relações funcionais com as instituições europeias. A incendiária esperada apresentou-se como gestora; enquanto isso, a Europa aproximou-se da sua linguagem, sobretudo na imigração e na transferência do controlo de fronteiras para países terceiros.

Os números oferecem matéria para a celebração. O défice público caiu de 8,6% do PIB em 2022 para 3,1% em 2025, o desemprego aproximou-se de 6% e os mercados passaram a olhar a dívida italiana com menos ansiedade. A superfície financeira acalmou, mas o país mantém dívida pública próxima de 137% do PIB, produtividade fraca, salários comprimidos e saída persistente de jovens. Reformas da administração, da saúde, da educação e do sistema político ficaram incompletas. Meloni baixou a febre sem curar a doença.

A estabilidade pode ser virtude institucional ou anestesia política. Parte da longevidade do governo resulta de ter evitado mudanças capazes de desorganizar interesses instalados e assustar eleitores. Quando a duração se apresenta como a principal reforma, altera-se a medida do sucesso: o cidadão agradece a ausência de crise em vez de exigir transformação. Numa Europa em que França e Reino Unido trocaram repetidamente de primeiros-ministros desde 2022, a comparação favorece Meloni e empobrece o debate.

O risco democrático contemporâneo raramente chega vestido com os uniformes do passado. Surge quando ideias antes extremas ganham vocabulário administrativo, quando a exceção vira política pública e quando a tranquilidade dos mercados funciona como certificado de moderação. A democracia começa a mudar nos adjetivos antes de mudar nas instituições; quando todos percebem, a fronteira do aceitável já se deslocou.

Meloni chega às eleições de 2027 com uma vitória real: demonstrou que a direita radical pode governar sem produzir o colapso anunciado pelos adversários. Também enfrenta forças ainda mais duras, interessadas no espaço ideológico que deixou ao caminhar para o centro. A sua permanência dependerá de convencer os italianos de que previsibilidade basta num país habituado ao caos.

Giorgia Meloni fez a Itália parecer governável. Se a estabilidade não produzir mobilidade, salários, serviços e futuro, a sua construção mais duradoura terá sido outra: ensinar à Europa que a normalização também pode ser uma forma silenciosa de radicalização.


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Comentários

Uma resposta a “A estabilidade como álibi”

  1. […] lição ultrapassa a Alemanha. As democracias liberais sabem identificar partidos extremistas, mas perderam capacidade para criar v…. O Estado produz relatórios; o populista oferece uma mesa, uma história e reconhecimento. […]

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