O Brasil chega a este 7 de Setembro a 27 dias da eleição geral. Quando a disputa partidária pretende decidir quem pode usar a bandeira, celebrar a independência com livros e conhecimento torna-se um ato de defesa da democracia.
Uma bandeira pode ser sequestrada por um grupo. Uma biblioteca obriga a nação a conviver com muitas vozes.
Há países que perdem território; outros perdem vocabulário comum. A fratura política começa quando pátria, liberdade e povo deixam de nomear uma experiência partilhada e viram senhas de um campo. O verde e amarelo converte-se em uniforme; quem o rejeita entrega a nação ao adversário. Ambos os gestos empobrecem o Brasil.
Os livros impedem essa ocupação porque devolvem pluralidade à ideia de país. A separação de Portugal, em 1822, conviveu com o país mais escravista da América, manteve exclusões e deixou por construir grande parte da cidadania. Ler essa história por inteiro não enfraquece o sentimento nacional. Liberta-o da obrigação infantil de confundir amor à pátria com amnésia.
Essa tarefa tornou-se urgente. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que 53% dos brasileiros não tinham lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores e que o país perdera quase sete milhões de leitores desde 2019. É um défice com consequências políticas: sem intimidade com argumentos longos e versões contraditórias, o cidadão fica mais exposto à frase que simplifica, ao vídeo que inflama e ao algoritmo que só confirma.
A própria Constituição liga a educação ao pleno desenvolvimento da pessoa e ao preparo para a cidadania. A soberania, portanto, não se esgota na fronteira, no hino ou na capacidade militar. Também depende da possibilidade de um povo interpretar documentos, reconhecer manipulações, conhecer a sua formação e participar da vida pública sem terceirizar o pensamento.
Foi essa convicção que orientou o projeto 200 anos, 200 livros. Para o bicentenário, 169 intelectuais do Brasil, de Portugal, de Angola e de Moçambique indicaram obras capazes de explicar o país. A lista quis abrir uma conversa. “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, foi o título mais lembrado; ao seu lado estavam romances, ensaios, história, pensamento indígena e interpretações incompatíveis entre si. O Brasil aparecia como construção disputada, nunca como cartaz pronto.
Há uma lição particularmente importante nessa participação dos países de língua portuguesa. A independência política separou Estado e império; o conhecimento permite examinar a relação sem ressentimento obrigatório nem nostalgia colonial. Quando brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos leem uns aos outros, a língua deixa de ser vestígio de domínio e transforma-se em espaço de circulação, crítica e criação.
Em tempos de fratura, comemorar exige mais do que pedir união. Bibliotecas abertas, escolas capazes de ensinar história sem propaganda, clubes de leitura, arquivos públicos, jornalismo responsável e ciência acessível criam o terreno onde a divergência não precisa terminar em expulsão simbólica. Uma celebração baseada apenas em lealdade produz espectadores obedientes; uma celebração baseada em fontes forma cidadãos que podem discordar sem destruir o mundo comum.
O desfile mostra a força do Estado. A biblioteca revela a confiança da República no cidadão. A bandeira pode reunir uma multidão durante algumas horas; o conhecimento ensina essa multidão a continuar sendo um povo no dia seguinte. O Brasil será tanto mais independente quanto menos medo tiver dos livros que o contradizem.

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