Mãe, naquele verão em que a casa parecia feita de cal e eternidade,
as tuas mãos pousavam nos meus ombros como duas aves que conheciam o peso do céu.
Eu ainda era apenas a pequena criatura azul diante da luz,
um começo de homem sem mapa, sem ferida, sem notícia da noite.
Hoje olho a sombra na parede e sei que ela não vinha da árvore,
vinha dos anos que já caminhavam para mim com os seus sapatos escuros.
Entre a tua mão antiga e o tempo de Manuel abriu-se um corredor de silêncio,
e nele eu caminho como quem leva uma lâmpada acesa dentro da tempestade.
Tu amparaste-me no limiar da infância; eu tento ampará-lo no limiar do abismo,
mas há dores que não aceitam braços, há filhos que se tornam países cercados de nevoeiro.
Maria, talvez uma mãe seja isto: a primeira margem antes do rio,
e talvez um pai seja apenas alguém que aprende tarde a rezar com as mãos vazias.
A casa continua branca na fotografia, mas dentro dela há agora uma noite sem calendário,
e eu, que fui salvo pelo teu gesto, procuro repetir a tua ternura contra aquilo que não sei vencer.
Porque o amor não impede a sombra: apenas nos ensina a ficar de pé dentro dela,
como aquela criança que eu fui, sustentada por ti, antes de saber que um dia teria de sustentar o impossível.

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