Portugal voltou a transformar a liberdade em rua, corpo e juventude. Celebrando a revolução dos cravos, a Avenida da Liberdade em Lisboa, mostrou que uma democracia madura não é a que deixa de ter conflitos, mas a que ainda consegue celebrá-los sem perder o chão comum.
Ontem, em Lisboa, a Avenida da Liberdade voltou a encher-se de gente para assinalar os 52 anos do 25 de Abril. O percurso é quase uma aula de história a céu aberto: desce-se do Marquês de Pombal, figura maior do absolutismo reformista português, até aos Restauradores, nome dado aos que devolveram a independência a Portugal em 1640.
Entre uma memória de poder outra de libertação, milhares de pessoas caminharam para celebrar o dia em que terminou a ditadura do Estado Novo e começou o caminho democrático português. A imprensa portuguesa registou a presença de todas as gerações, cravos, sindicatos, famílias, turistas e uma multidão descendo a avenida em ambiente de festa cívica.
O que se viu ali importa mais do que parece. A liberdade portuguesa deixou de ser apenas memória de uma geração e hoje volta a ser com surpreendente força a linguagem comum de várias juventudes. Havia antigos resistentes, trabalhadores organizados, famílias, brasileiros, africanos, turistas, jovens portugueses de várias regiões e militantes de campos diferentes.
Havia esquerda, centro e direita democrática no mesmo ritual público. Num tempo em que tantas sociedades confundem divergência com guerra civil moral, Portugal ofereceu uma imagem rara: a democracia como lugar onde adversários ainda cabem na mesma avenida.
Esse talvez seja o ponto essencial. No Brasil, as grandes datas nacionais são muitas vezes sequestradas pela divisão. O 7 de Setembro, por exemplo, deixou de ser apenas uma festa da independência e passou a funcionar, em certos momentos, como território de disputa, suspeita e ocupação simbólica.
Hoje em Portugal, a revolução dos cravos pertence, cada vez mais a todos. Nas presidenciais em fevereiro, Portugal escolheu António José Seguro com 66,83% dos votos, contra 33,17% de André Ventura, numa segunda volta que testou a força da moderação diante do avanço populista. A descida da Avenida da Liberdade, dois meses depois, confirma essa resposta. Não como propaganda partidária, mas como clima civil. Portugal tem habitação cara, salários baixos, imigração mal resolvida, tensão social einseguranças, mas mesmo assim mostra que ainda há uma maioria cultural que não quer entregar a liberdade ao ressentimento.
Mas a juventude foi a melhor notícia. O 25 de Abril nasceu dos militares, dos resistentes, dos presos políticos, dos exilados, dos trabalhadores, dos estudantes, das mulheres que puseram cravos nas armas e de um povo que percebeu que a história tinha aberto uma porta. Mas, se ficasse apenas nisso, seria museu.
Ontem, a avenida mostrou outra coisa: Abril já não é só herança. Quando a Juventude Social Democrata (JSD) — organização juvenil oficial do partido que hoje lidera no governo — também desfila na avenida, isso demonstra que em Portugal existe um compromisso entre o futuro e a liberdade conquistada.
Ontem, a principal Avenida da capital Lusa não apagou diferenças, fez melhor. Mostrou que elas podem caminhar sem se destruir. Entre o Marquês e os Restauradores, entre o passado imperial e a independência recuperada, entre a memória da ditadura e a juventude da democracia, Portugal encontrou uma imagem simples e poderosa. A liberdade verdadeira não fica parada em monumentos. Desce a avenida, mistura sotaques, atravessa gerações e chega à noite com a estranha alegria das coisas que ainda não se perderam.

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