Durante anos, este dossiê foi tratado como promessa adiada, quase uma peça de ficheiro diplomático. Entretanto, o mundo acelerou. A rivalidade entre Estados Unidos e China reorganizou cadeias de valor, a guerra na Ucrânia expôs vulnerabilidades energéticas e logísticas, e a Europa percebeu que depender excessivamente de poucos parceiros tem custo político. O Mercosul deixou então de ser apenas um debate agrícola ou aduaneiro. Passou a ser uma questão de posicionamento estratégico.
Se o acordo avançar com ratificação política e operacionalização progressiva, haverá redução tarifária em larga escala, maior previsibilidade regulatória e um novo enquadramento para comércio, serviços, compras públicas e investimento. Mas seria ingénuo ler isto como uma simples festa exportadora. Os ganhos não serão automáticos nem distribuídos por igual. Haverá sectores beneficiados, sectores pressionados e empresas que descobrirão tarde demais que acesso ao mercado não é o mesmo que capacidade para o ocupar.
Para Portugal, o tema merece uma leitura menos periférica do que por vezes se faz em Bruxelas. O acordo Mercosul-União Europeia, o que muda, no nosso caso, não é apenas o mapa das tarifas. Muda o lugar de Portugal como plataforma de relação com o Brasil e, por extensão, com o espaço sul-americano. Numa Europa que continua a olhar para a América Latina com intermitência, Lisboa tem uma vantagem rara: língua, memória institucional, circulação empresarial e uma familiaridade cultural que não elimina riscos, mas reduz ruído. Essa vantagem, porém, só vale se for activada com método. Não basta invocar afinidades atlânticas em conferências elegantes.
Do lado brasileiro, o acordo pode funcionar como estímulo competitivo e como teste de maturidade regulatória. Alguns sectores industriais verão pressão acrescida da concorrência europeia; outros encontrarão um corredor mais estável para exportação e integração em cadeias de maior valor.
O agronegócio, como sempre, surge no centro da disputa pública, quase sempre de forma simplificada. Sim, haverá ganho para produtores com escala, conformidade sanitária e capacidade logística. Mas a verdadeira mudança está menos no volume bruto e mais no filtro qualitativo. A Europa compra com exigência normativa, reputacional e ambiental. Quem trata isso como detalhe administrativo está a ler mal o jogo.
É aqui que o acordo deixa de ser tema de diplomatas e passa a ser assunto de conselhos de administração. A próxima década não será favorável a empresas que confundem internacionalização com oportunismo comercial. Exportar para a União Europeia exige rastreabilidade, disciplina contratual, adaptação técnica e inteligência cultural. O mesmo vale, num sentido inverso, para grupos europeus que imaginam o Mercosul como mercado homogéneo. Não é. O Brasil não é o Uruguai, a Argentina não é o Paraguai, e a proximidade linguística entre portugueses e brasileiros não dispensa tradução institucional.
Há também uma alteração silenciosa, mas relevante, na geografia do investimento. Com um quadro mais previsível, empresas europeias poderão rever estratégias de presença industrial, distribuição e parcerias locais no Mercosul. Isto interessa particularmente aos sectores em que Portugal pode actuar como intermediário credível: agro-indústria, energias, tecnologia aplicada à produção, logística, fileira alimentar, economia do mar, serviços empresariais e indústrias culturais com vocação internacional. O eixo Portugal-Brasil ganha aqui espessura estratégica, não por romantismo lusófono, mas porque redes de confiança continuam a contar quando os mercados se tornam mais complexos.
Convém, ainda assim, recusar a fantasia de que o acordo resolverá sozinho as fragilidades de competitividade da nossa economia ou as assimetrias internas do Mercosul. Acordos comerciais criam molduras. Não substituem política industrial, qualificação empresarial, infra-estruturas nem capacidade diplomática.
Uma empresa média portuguesa pode beneficiar de melhores condições de acesso e, mesmo assim, falhar no Brasil por leitura deficiente do tempo local, do sistema fiscal ou da arquitectura de decisão do parceiro. Uma empresa brasileira pode ganhar janela europeia e continuar bloqueada por standards que nunca levou verdadeiramente a sério.
A resistência europeia ao acordo, sobretudo em países sensíveis à pressão agrícola e ambiental, também não é ruído menor. Ela mostra que o comércio deixou de poder ser apresentado como técnica neutra. Hoje, qualquer abertura de mercado é discutida à luz de clima, soberania alimentar, emprego e legitimidade política. Isso torna o processo mais lento, mas também mais realista. O velho livre-cambismo abstraído das sociedades já não convence eleitorados nem parlamentos. Quem quiser defender este acordo terá de o fazer com inteligência política, não com fé automática no mercado.
Para empresários e decisores portugueses, a pergunta útil não é se o acordo é historicamente importante. É demasiado cedo para monumentos. A pergunta útil é como preparar posição antes de a concorrência o fazer. Rever cadeias de fornecimento, mapear sectores com vantagem tarifária real, investir em conformidade regulatória, fortalecer presença institucional no Brasil e construir alianças locais menos improvisadas. O acordo, se entrar numa velocidade, premiará os preparados e punirá os entusiasmados.
Há um ponto menos comentado e talvez mais decisivo. Este entendimento, se sobreviver às resistências, sinaliza uma mudança de linguagem entre Europa e América do Sul. Já não basta falar de cooperação abstracta. Fala-se de acesso, regra, reciprocidade, influência. Numa era em que quase tudo regressa ao cálculo geopolítico, o Atlântico Sul volta a contar. Não por nostalgia imperial, que seria uma forma preguiçosa de ignorância, mas porque comércio, energia, alimentação e circulação de talento voltaram a cruzar-se no mesmo tabuleiro.
Portugal tem aqui uma escolha discreta, mas séria. Pode comentar o processo como observador de boas maneiras ou pode ocupar o espaço de tradução estratégica entre sistemas, empresas e instituições. Esse lugar não se herda. Conquista-se com presença, credibilidade e leitura longa. O acordo Mercosul-União Europeia não muda tudo. Muda, porém, o suficiente para separar os que esperam por clareza dos que sabem agir ainda dentro da neblina. E é quase sempre aí que o valor aparece primeiro.

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