O acordo político entre a União Europeia e o Mercosul, anunciado em Montevideu no final de 2024, devolveu uma evidência ao centro da conversa: a geopolítica lusófona negócios não é uma especialidade para conferências diplomáticas. É matéria de administração, investimento, exportação e reputação. Durante anos, Portugal e Brasil trataram a relação económica como um património afectivo, útil para abrir portas, insuficiente para decidir onde pôr capital. O novo ciclo obriga a outra disciplina.
O tratado não elimina tarifas por decreto nem apaga as resistências agrícolas europeias, as exigências ambientais ou a lentidão parlamentar. Aliás, é precisamente essa demora que merece atenção. Os acordos comerciais deixam de ser meros instrumentos de redução de custos quando passam a condensar disputas sobre soberania alimentar, transição energética, cadeias industriais e poder regulatório. Uma empresa que olhe apenas para a pauta aduaneira chegará tarde à conversa relevante.
Portugal ocupa aqui uma posição curiosa. É pequeno demais para impor a arquitectura do acordo e suficientemente europeu para compreender os seus códigos. Tem escala reduzida, mas possui uma memória institucional e comercial que continua a ser legível no Brasil, em Angola, Moçambique, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe. Essa condição não garante negócio algum. Garante, quando bem trabalhada, contexto. E contexto é uma forma discreta de vantagem competitiva.
O Brasil, por seu lado, não deve ser lido como um mercado lusófono ampliado. É uma potência continental com vocação própria, densidade empresarial, capacidade financeira e uma relação pragmática com a China, os Estados Unidos e a Europa. A língua aproxima interlocutores, mas não substitui a leitura do federalismo brasileiro, das diferenças entre estados, do peso das famílias empresariais, da importância do acesso político local ou da velocidade com que uma crise de Brasília pode alterar o ambiente de confiança em São Paulo.
É aqui que muitos projectos luso-brasileiros se perdem. Confundem afinidade com previsibilidade. Há empresários portugueses que chegam ao Brasil com a ideia de que falam a mesma língua e descobrem, demasiado tarde, que a mesma língua contém ritmos de decisão, hierarquias, formas de recusar e expectativas de presença muito diferentes. Há grupos brasileiros que entram em Portugal como se estivessem a adquirir uma pequena extensão europeia e encontram uma administração exigente, um mercado maduro, redes locais densas e uma opinião pública atenta a sinais de arrogância económica.
A geopolítica começa nesses detalhes aparentemente menores. Uma reunião marcada sem mediação adequada, um parceiro escolhido apenas pela carteira de contactos, uma promessa comercial que ignora a relação com reguladores: tudo isto pode ter consequências que um modelo financeiro não regista. Nos mercados ligados pela língua, a reputação circula depressa e tende a sobreviver aos contratos. É uma vantagem para quem cuida da palavra dada; é um custo persistente para quem trata a proximidade cultural como licença para improvisar.
O espaço africano de língua portuguesa acrescenta uma camada que frequentemente é reduzida a mapas de recursos naturais. Angola, Moçambique e Cabo Verde não são uma periferia de Lisboa nem uma extensão de São Paulo. Têm agendas nacionais, elites económicas próprias, relações históricas complexas e interlocutores internacionais cada vez mais diversos. A presença chinesa, turca, árabe, americana e indiana alterou a gramática das oportunidades. Já não basta aparecer com uma proposta tecnicamente competente e uma afinidade linguística no bolso.
Em Angola, por exemplo, energia, infra-estruturas, banca e consumo convivem com a necessidade de compreender ciclos políticos e capacidade efectiva de execução. Em Moçambique, o potencial do gás e dos corredores logísticos exige uma atenção constante ao risco de segurança, às comunidades e ao tempo longo dos projectos. Cabo Verde oferece outra lição: dimensão limitada não significa irrelevância, sobretudo quando um país sabe transformar estabilidade institucional, diáspora e posição atlântica em activo diplomático. Cada caso pede uma estratégia, não um mapa pintado com a mesma cor.
O Atlântico lusófono ganha importância justamente porque a globalização deixou de parecer uma estrada sem portagens. Empresas europeias procuram diversificar fornecedores e reduzir dependências excessivas. Empresas brasileiras voltam a olhar para Portugal como plataforma de entrada, não por exotismo, mas por acesso institucional, jurídico e cultural. Empresas portuguesas precisam de perceber que o Brasil pode ser destino, parceiro industrial e fonte de capital, dependendo do sector. Na cultura, na alimentação, na saúde, na energia, nas tecnologias financeiras e no audiovisual, as combinações possíveis já não obedecem à velha ideia de exportar de um centro para uma margem.
Convém, contudo, não transformar a lusofonia numa marca vazia. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem valor político e simbólico, mas não substitui acordos de protecção de investimento, logística funcional, quadros fiscais inteligíveis, crédito, seguros ou equipas locais. A língua abre a primeira conversa. O que mantém a segunda é a competência. O que permite a terceira é a confiança produzida com tempo.
Para os decisores públicos, a tarefa é menos romântica do que por vezes parece. É necessário ligar diplomacia económica a inteligência sectorial, dar continuidade às relações e evitar que cada missão empresarial recomece do zero após uma mudança de governo. Para as empresas, a exigência é semelhante: entrar com parceiros que conheçam o terreno, prever custos de adaptação e aceitar que a presença institucional não é uma cerimónia de inauguração. É trabalho paciente de escuta, presença e escolha.
Há também um erro de escala. Fala-se de Portugal e Brasil como se fossem blocos homogéneos, quando a oportunidade real vive muitas vezes entre cidades, universidades, associações empresariais, fundos, portos, produtores culturais e redes de diáspora. Lisboa e São Paulo têm uma conversa particular; Porto e Recife podem ter outra; Luanda, Maputo e Salvador não entram no mesmo parágrafo apenas porque partilham vocabulário. Quem percebe estas geografias menores vê oportunidades antes de elas receberem um nome oficial.
O acordo UE-Mercosul, se e quando encontrar a sua forma definitiva, será menos uma linha de chegada do que um teste de maturidade. Exigirá empresas capazes de provar origem, sustentabilidade, conformidade e consistência. Penalizará quem continue a tratar relações internacionais como uma sucessão de viagens, fotografias e cartões-de-visita. A vantagem lusófona não está numa nostalgia imperial, que é politicamente pobre e comercialmente inútil. Está na possibilidade de construir confiança entre economias que se conhecem imperfeitamente, mas dispõem de instrumentos para se entender melhor do que supõem.
O investidor sensato não procura uma língua comum para evitar o trabalho de conhecer o outro. Procura-a para começar esse trabalho com mais precisão. No Atlântico, essa diferença separa a oportunidade anunciada do negócio que permanece.

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