Guia para o comércio cultural atlântico hoje

Guia para o comércio cultural atlântico hoje

Há empresas que chegam ao Brasil com uma tabela de preços impecável e regressam a Portugal a culpar a burocracia, a distância ou um parceiro mal escolhido. Quase sempre deixaram por fazer o trabalho que precede qualquer contrato: ler o ambiente. Um guia para o comércio cultural atlântico começa aí, num pormenor que os relatórios financeiros não captam: negócios entre margens do mesmo oceano raramente falham por falta de idioma; falham pela ilusão de que falar português equivale a habitar o mesmo código.

A longa negociação entre a União Europeia e o Mercosul devolveu esse assunto ao centro da conversa económica. As tarifas, as regras de origem e os capítulos ambientais ocupam o espaço previsível. Menos previsível é aquilo que o acordo expõe: Portugal e Brasil continuam a olhar-se com uma intimidade verbal que, muitas vezes, dispensa a atenção estratégica. O comércio cultural começa precisamente onde essa facilidade termina. Não é um sector delimitado por bilheteiras, feiras do livro ou exportação de conteúdos. É a capacidade de uma marca, instituição ou empresário transportar significado sem o deixar perder na travessia.

Quem vende vinho português em São Paulo não vende apenas uma garrafa. Leva consigo uma ideia de território, uma gramática de hospitalidade, uma relação com o tempo e, por vezes, uma certa ansiedade portuguesa de ser reconhecido antes de ser compreendido. Quem traz música brasileira, gastronomia baiana ou design paulista para Lisboa encontra outro mapa mental: um mercado menor, mais concentrado, com canais institucionais densos e uma grande sensibilidade ao estatuto de legitimidade. O produto pode ser excelente. A sua leitura pública é que decide se se torna presença ou apenas episódio.

Há quem trate a cultura como decoração do negócio, reservada para o discurso de abertura, para o jantar com convidados ou para o patrocínio que melhora a fotografia anual. É um erro dispendioso. Cultura é informação económica antes de ser ornamento. Diz-nos como se constrói confiança, quem recomenda quem, quanto vale uma apresentação, que tipo de informalidade é sinal de proximidade e qual é apenas desorganização. Diz-nos também quando o entusiasmo é uma porta e quando é uma forma elegante de adiar uma decisão.

No eixo luso-brasileiro, a reputação viaja por circuitos menos lineares do que os organogramas admitem. Um empresário pode ter uma proposta forte e, ainda assim, precisar de alguém que lhe traduza o lugar. Não a língua, que é a parte simples, mas a posição. Em Lisboa, a recomendação de uma associação, uma universidade, uma câmara de comércio ou uma figura com vida pública pode reduzir meses de fricção. No Brasil, a credibilidade tende a nascer de uma combinação mais viva entre presença, recorrência, resposta rápida e rede local. Nenhuma destas lógicas é superior. São geografias sociais diferentes.

É por isso que a primeira decisão séria não é escolher um distribuidor. É definir o que se quer representar. Uma empresa portuguesa que se apresenta no Brasil apenas como europeia perde uma parte da sua vantagem afectiva. Uma empresa brasileira que chega a Portugal a invocar apenas a dimensão do seu mercado ignora a necessidade portuguesa de enquadrar, comparar e testar. As identidades nacionais podem ser activos, mas tornam-se caricaturas quando usadas como argumento único. A saudade não fecha contratos. A escala brasileira também não. O que fecha contratos é a percepção de que existe continuidade entre a promessa, a operação e a relação.

O Atlântico lusófono acrescenta uma camada decisiva. Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe não são apêndices exóticos de uma conversa entre Lisboa e São Paulo. São lugares com histórias institucionais, diásporas, consumos culturais e redes empresariais próprias. Tratá-los como uma abstracção de língua portuguesa produz o tipo de erro que uma boa reunião inicial consegue esconder, mas que a execução revela depressa. Há oportunidades reais em educação, audiovisual, turismo, gastronomia, edição, moda, arquitectura, tecnologia aplicada à cultura e formação. A palavra relevante, porém, é relação. Sem parceiros que conheçam o terreno, a ambição atlântica pode transformar-se em vaidade cartográfica.

Também convém desconfiar da ideia de que uma presença digital resolve a distância. Pode acelerar o primeiro contacto, testar linguagens e criar comunidade. Mas não substitui o trabalho presencial nos mercados em que a confiança continua a ter corpo, agenda e memória. Uma visita bem preparada vale mais do que dez mensagens entusiásticas enviadas a horas erradas. Preparada significa chegar com uma tese sobre o interlocutor, saber o que se pode oferecer e, sobretudo, o que não se deve prometer. O visitante que tenta parecer local ao fim de dois dias inspira menos confiança do que aquele que reconhece a sua origem, escuta e aprende depressa.

Há, claro, uma dimensão de poder nesta circulação. Portugal tem portas institucionais na Europa, uma diáspora vasta e uma imagem de estabilidade que pode servir projectos brasileiros interessados em expansão continental. O Brasil possui escala, repertório criativo, capacidade de influência e uma relação natural com mercados que Portugal observa de longe. A troca torna-se pobre quando um país imagina o outro apenas como atalho. Portugal não é uma sala de espera europeia. O Brasil não é um mercado de afectos para pequenas marcas portuguesas. Ambos podem ser plataformas, desde que a palavra plataforma não esconda improviso.

Para os decisores públicos, há uma lição menos confortável. A diplomacia cultural não pode limitar-se a celebrar datas, autores consagrados e fotografias protocolares. Precisa de criar condições para que as redes se encontrem com continuidade: residências, coproduções, circulação profissional, conhecimento regulatório, formação de mediadores e espaços em que empresários e criadores não se tratem como espécies diferentes. Uma editora que encontra um tradutor, um realizador que encontra um coprodutor ou uma empresa de alimentação que entende a narrativa do seu produto estão todos a fazer política externa em escala humana.

O melhor comércio cultural atlântico tem pouca aparência de manual. Aprende-se a reconhecer o momento em que uma conversa deve sair do jantar e entrar numa proposta, ou aquele em que uma proposta precisa de esperar porque a instituição ainda não encontrou internamente a sua razão para avançar. Aprende-se que o preço comunica posição e que o excesso de desconto pode destruir, em minutos, a confiança que se tentou construir durante meses. Aprende-se também que a familiaridade entre portugueses e brasileiros pede mais rigor, não menos. É fácil pressupor demais quando a conversa soa tão próxima.

Há uma vantagem em olhar o Atlântico desta forma: deixa de ser uma nostalgia geográfica e passa a ser uma disciplina de presença. O investidor, o gestor cultural e o responsável público que perceberem isto terão menos pressa de anunciar pontes e mais cuidado em saber quem as atravessa, em que sentido e com que linguagem. É aí que o comércio ganha espessura. E é aí que uma relação, antes de se tornar negócio, começa a merecer durar.


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